Polémica sobre minorias na agenda dos Óscares

Leonardo DiCaprio e O Renascido parecem estar na linha da frente como vencedores antecipados dos Óscares. Apesar de tudo, há quem preveja algumas surpresas

Os Óscares dominam a atualidade cinematográfica: a 88.ª edição está marcada para amanhã, às 17.30, em Los Angeles (em Portugal, 01.30 da noite de domingo para segunda--feira). E com uma expectativa insólita. Milhões de espectadores terão na cabeça uma pergunta muito concreta quando Chris Rock aparecer como mestre de cerimónias no palco do Dolby Theatre: como é que ele irá abordar a muito discutida questão da representação (ou da ausência) dos afro-americanos nas nomeações para os mais populares prémios de cinema do planeta? Ou ainda: sendo ele um cidadão americano de pele negra, como é que a sua performance irá refletir aquela que é, em qualquer caso, uma das mais perturbantes convulsões da história moderna de Hollywood?

A questão não é simples, mesmo que nela queiramos introduzir alguma ironia: será que a discussão do modo como os filmes americanos refletem a história das minorias do seu país, uma história necessariamente plural e contraditória, vai ficar enredada em reivindicações meramente estatísticas? Vamos ser compelidos a classificar os filmes, literalmente, a preto e branco?

Dir-se-ia que há uma ameaça de saturação "ideológica" de um evento que, tradicionalmente, é encarado como o cume da sofisticação e do glamour (incluindo na sua dimensão comercial). Talvez por isso, observadores da indústria cinematográfica têm sugerido a hipótese de algumas surpresas, capazes de contrariar um problema, também ele desconcertantemente estatístico: a sensação de que, depois dos Globos de Ouro, dos BAFTA e dos prémios das diversas associações profissionais (guilds) está tudo decidido.

O favoritismo de DiCaprio

O Óscar de melhor ator, por exemplo. Quem ainda duvida de que é desta vez, com a sua quinta nomeação em categorias de representação, que Leonardo DiCaprio vai ganhar? Kristopher Tapley, por exemplo, jornalista da Variety, levanta uma dúvida metódica. É verdade que a interpretação de DiCaprio em The Revenant: O Renascido é um caso raro de combinação da resistência física com as nuances da arte de representar. Mas não é menos verdade que Bryan Cranston, nomeado pela sua interpretação em Trumbo, é uma figura de grande prestígio em Hollywood (também por causa da série televisiva Breaking Bad), surgindo num filme cuja dimensão histórica e simbólica - a evocação das perseguições políticas em Hollywood durante o "maccartismo" - não pode ser menosprezada. Será que o significado histórico de alguns filmes, incluindo as suas ressonâncias sociais no nosso presente, poderá ser um fator importante nas decisões dos mais de seis mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood?

Além do eloquente favoritismo de O Renascido, há dois títulos cujas potencialidades na categoria de melhor filme convém não esquecer, mesmo se, como se costuma dizer, correm por fora... São eles O Caso Spotlight, reconstituindo uma investigação jornalística, em 2001, sobre casos de pedofilia protagonizados por membros da Igreja Católica, e A Queda de Wall Street, evocando os bastidores de algumas instituições financeiras pouco antes da eclosão da crise de 2008. São memórias de histórias verídicas recentes que, além do mais, contrariam a visão mais simplista (mas mediaticamente muito poderosa) de Hollywood como fábrica de "efeitos especiais". E não será arriscado supor que são os vencedores antecipados de duas categorias sempre importantes na dinâmica da indústria: argumento original (O Caso Spotlight) e argumento adaptado (A Queda de Wall Street).

A questão das audiências

Neste ano, a Academia nomeou oito títulos na categoria de melhor filme (os regulamentos permitem um máximo de dez). E se O Renascido, O Caso Spotlight e A Queda de Wall Street parecem ser os únicos com reais possibilidades de arrebatar a distinção mais apetecida, convém dizer que Mad Max: Estrada da Fúria vai ser, por certo, um dos mais premiados da noite. O seu reconhecimento como uma invulgar proeza de execução, combinando os efeitos especiais com a rodagem em cenários naturais, colocam-no na linha da frente das chamadas categorias técnicas.

Os restantes quatro - Perdido em Marte, A Ponte dos Espiões, Quarto e Brooklyn - pouco mais poderão do que cumprir uma presença honrosa. Em boa verdade, só dois deles parecem vencedores "seguros" de um Óscar, embora nas fundamentais categorias de interpretação: Mark Rylance (A Ponte dos Espiões) como melhor ator secundário; Brie Larson (Quarto) como melhor atriz.

Em última instância, nos EUA, será que a polémica em torno da representação cinematográfica das minorias vai gerar uma maior audiência televisiva? Porque, não tenhamos ilusões, essa é uma questão fundamental, e tanto mais quanto a cerimónia do ano passado, apresentada por Neil Patrick Harris, com uma média de pouco mais de 37 milhões de espectadores, registou uma baixa de 15% em relação ao ano anterior. Será que Hollywood tem alguma coisa a aprender com o futebol americano? É que, há poucas semanas, o Super Bowl atraiu uma média de 111 milhões...

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