Pixies. "Imagino o detestável que devíamos ser para os nossos vizinhos..."

A banda regressa a Portugal e toca no Nos Alive. Há músicas novas e outras, antigas, que não vão faltar no alinhamento

Começa a ser difícil contar o número de vezes que os Pixies visitaram Portugal. Na primeira vida do grupo de Black Francis, tocaram nos lotadíssimos coliseus do Porto e de Lisboa em 1991. Provocaram uma grande enchente no Parque Tejo, no Super Bock Super Rock, em Lisboa, no ano da reativação da banda, em 2004. Vários concertos depois (Paredes de Coura em 2005, Pavilhão Atlântico em 2006, Coliseu dos Recreios em 2013, NOS Primavera Sound em 2014), esta instituição do rock alternativo norte-americano é um dos nomes fortes do NOS Alive deste ano. Antes do concerto de quinta- -feira telefonámos ao baterista e fundador David Lovering.

Têm estado em estúdio nos últimos tempos. Podemos esperar novas canções?

Temos estado a trabalhar em novas músicas. Estivemos a gravar algumas coisas pontualmente. As sessões têm corrido lindamente, gosto mesmo dos novos temas que temos estado a fazer [risos]. Não só de algumas como de todas.

Estão a pensar lançar um novo álbum em breve?

Ainda não sabemos bem. Temos estado a trabalhar estas canções há algum tempo. Estivemos em ensaios em Toronto, em Los Angeles e na Inglaterra, para tentar reunir algum material novo. Mas ainda não temos qualquer data para editar o disco. Ainda estamos a aperfeiçoar as canções. Temos montes de temas novos, não sei quantos, mas virá a altura em que teremos de os selecionar.

Planeiam tocar algumas das novas canções no Alive?

Sim, há uma canção que trabalhámos muito bem e que gostamos de tocar ao vivo. Talvez toquemos essa canção, Umchumlagga, e quem sabe mais alguma.

É impossível não tocarem um dos vossos temas mais emblemáticos de sempre, o Vamos?

Adoro tocar o Vamos, é uma das minhas canções preferidas. É muito raro não tocarmos esse tema. A cada cem atuações, é provável que só não toquemos o Vamos em duas. O Joey diverte--nos sempre com o seu show de guitarra durante o seu solo. É por isso que tocamos tanto o Vamos.

Como ilusionista que é, já pensou em ensinar algum truque de magia ao Joey durante o seu solo do Vamos?

[Risos] A única coisa que fazemos não é propriamente um truque de magia. Eu lanço ao Joey uma das minhas baquetas quando estamos a tocar o Vamos. O truque é ele apanhar a baqueta no ar enquanto toca a guitarra. Depois ele devolve-me a baqueta que tenho de apanhar enquanto mantenho a batida. Diria que 88% das vezes isto corre bem.

Vivem longe uns dos outros, atualmente?

O Joey e a Paz [Lenchantin, a atual baixista e segunda substituta de Kim Deal] vivem em Los Angeles, eu vivo a meio caminho da Califórnia e o Charles vive em Massachusetts, na costa leste. Mas, na verdade, sempre vivemos longe uns dos outros. Quando vamos fazer grandes digressões, só precisamos de dois dias de ensaios.

É verdade que nos primeiros tempos dos Pixies a banda ensaiava na garagem do David?

Foi mesmo nos primeiros tempos, há muito, muito tempo, em 1986. Era muito mais barato e nós não tínhamos dinheiro nenhum para alugar uma sala de ensaio. Para nossa sorte, os meus pais tinham uma garagem. O engraçado é que começávamos a ensaiar às dez da noite e o volume sonoro era bem alto. Imagino o detestável que devíamos ser para os nossos vizinhos. Mais tarde, quando a banda ganhou nome, os vizinhos comentavam comigo: "Como era agradável ouvir-vos durante noites inteiras." [Risos] Tenho a certeza de que não era.

Era uma garagem inspiradora? Pelo menos, fizeram muitas canções nessa altura.

Muitas das canções do Surfer Rosa [álbum de 1988] foram lá feitas. Talvez fosse uma garagem inspiradora, fazia sentir-nos confortáveis e em casa. Em Boston, o nosso local de ensaios era bastante mais apertado.

Como todos sabemos, David Bowie tinha feito uma versão de Cactus dos Pixies. Que canção de Bowie se ajustaria melhor para uma cover dos Pixies como forma de retribuição?

Não posso falar pelos outros mas o Suffragette City é bem rocker e tem um certo espírito punk. Talvez essa nos assentasse. Nós participámos agora num espetáculo de tributo ao Bowie em Nova Iorque, em que tocámos o Cactus. Fomos a única banda que fez uma versão da sua própria canção [risos].

A segunda vida dos Pixies já tem duas vezes mais anos [12] do que a primeira [seis]. Admite hoje que se pode tornar um membro dos Pixies para o resto da sua vida?

Penso que sim. Parece um bocado impossível que estejamos a ter mais tempo do que da primeira vez. Desde que ultrapassámos a marca dos seis anos, apreciamos todos os momentos em que somos uma banda. Estamos a adorar a nossa continuidade. Manter-me-ei nos Pixies o máximo tempo que conseguir.

Qual é a música dos Pixies mais difícil de tocar para si?

Acreditem ou não, Holiday Song [publicado em 1987]. Quase que tenho de voar até ao mar para conseguir tocar essa canção. Quando tinha vinte e tais, não tinha problemas, mas agora que já tenho 54 o Holiday Song é tramado de se tocar. Sempre que iniciamos essa música, o Charles olha para mim para abrandar um pouco e tentarmos encaixar-nos. Até agora, ainda não falhei.

Quando vê Holiday Song no alinhamento, fica preocupado?

Fico um bocadinho assustado [risos]. Como normalmente não fazemos alinhamentos, sempre que percebo que o Charles vai tocar essa música o meu coração começa a palpitar mais depressa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG