Pedro Almodóvar regressa a Cannes com drama intimista

O espanhol apresentou Julieta, um melodrama pouco inspirado. Personal Shopper, de Olivier Assayas, é, para já, a maior desilusão

Muitos fãs do espanhol Pedro Almodóvar continuam a considerar que ele está "condenado" a arrebatar, um dia, a Palma de Ouro de Cannes. Em 1999, o seu Tudo Sobre a Minha Mãe foi mesmo saudado por muito boa gente como um vencedor antecipado... mas o júri, presidido por David Cronenberg, não lhes fez a vontade e deu a Palma a Rosetta, dos irmãos Dardenne (Almodóvar recebeu o prémio de realização).

Será desta? Será que o novo Almodóvar, de título Julieta, consegue vencer o seu próprio assombramento? Para mais, voltando a competir na companhia dos Dardenne? A conjuntura em que o filme surge envolve também os ecos mediáticos dos Papéis do Panamá: os nomes do cineasta e do seu irmão Agustin Almodóvar surgiram citados nos dados sobre a firma Mossack Fonseca, de tal modo que, por ocasião da estreia espanhola de Julieta, cerca de um mês antes do arranque do Festival de Cannes, Almodóvar cancelou todas as entrevistas e atividades promocionais em torno do filme. Agora, está na competição com Julieta, conjugando e adaptando (em tom muito livre, como ele próprio já reconheceu) três contos da canadiana Alice Munro (Nobel de 2013).

O menos que se pode dizer é que as formas de exuberância narrativa que fizeram a fama de Almodóvar estão ausentes do novo filme, talvez com a exceção do tratamento fotográfico, da responsabilidade do francês Jean-Claude Larrieu, privilegiando as cores densas e os grandes contrastes.

Para contar a história de uma mulher, Julieta, drasticamente marcada pelo afastamento da filha, Almodóvar aposta num tom discreto, sublinhando o poder confessional das palavras e os efeitos mais íntimos da passagem do tempo. De tal modo que as cenas de Julieta na atualidade e nos tempos da juventude são interpretadas por duas atrizes - Emma Suárez e Adriana Ugarte, respetivamente -, como se fossem outras tantas encarnações de uma personagem à deriva. Dir--se-ia que Almodóvar mais não consegue (ou mais não quer) além de imitar o seu próprio passado melodramático, numa espécie de autocitação fechada sobre si mesmo, embora pontuada por referências culturais (Lucian Freud, Patricia Highsmith, etc.) que disfarçam mal a fraca inspiração narrativa.

A desilusão de Assayas

Algo de semelhante terá acontecido com o francês Olivier Assayas, em Personal Shopper, por certo, pelo menos até agora, a maior desilusão e o filme mais gratuito do certame. Centrando-se numa jovem americana que trabalha como assistente de uma vedeta da moda, nele se narram as suas atribulações em Paris, eternamente "à espera" (é ela que o diz...) que o seu falecido irmão gémeo comunique a partir do além.

Será que Assayas quis reencontrar uma certa perturbação antirrealista, essencial em alguns dos seus mais antigos e belos trabalhos, como Desordem (1986) ou Paris Desperta (1991)? Talvez. Os resultados, contudo, mais parecem imitações kitsch de alguns lugares-comuns do género de terror, incluindo portas a bater e nevoeiros mais ou menos efémeros. Na personagem central, Kristen Stewart esforça-se imenso por emprestar alguma vibração aos acontecimentos, mas lembramo-nos da subtileza da sua performance no filme de Woody Allen Café Society (que abriu o festival) e sentimos uma diferença abissal.

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