Paula Rego partiu a testa e autorretratou-se ferida

Cinco inéditos e obras que abrangem 28 anos da carreira da pintora na exposição "The Boy Who Loved the Sea and Other Stories" que ontem abriu na Jerwood Gallery, em Hastings, no Sudeste de Inglaterra.

As histórias contadas pela escritora Hélia Correia no livro Bastardia e a testa partida da própria Paula Rego foram a matéria-prima da artista portuguesa para as obras inéditas que fazem parte da exposição The Boy Who Loved the Sea and Other Stories, ontem inaugurada na Galeria Jerwood, em Hastings, no Sudeste de Inglaterra.

A localização à beira-mar foi, de resto, fator determinante para aí ser apresentada esta exposição, como explica o comissário Colin Wiggins: "Uma nova série de Paula Rego é sempre ocasião para celebração. The Boy Who Loved the Sea é a sua mais recente exploração de um tema que sempre a fascinou e é um prazer anunciar que a Dama Paula quer que esta sua mais recente série seja exibida pela primeira vez no Reino Unido na Galeria Jerwood, em Hastings, com a sua localização única, à beira-mar."

A exposição, que só foi possível após uma bem-sucedida campanha de crowdfunding que conseguiu angariar 25 mil libras (28 mil euros), tem a particularidade de incluir um autorretrato, algo raro na obra da artista portuguesa, radicada em Londres desde a década de 1970. "Eu nunca pinto autorretratos, prefiro pintar outras pessoas. Pintei-me com as feridas porque era interessante, deu-me uma razão para pintar um autorretrato. [O curador da exposição] Colin Wiggins gostou deles e levou-os do meu estúdio. Não tinha nenhuma razão para não os mostrar", disse a artista à agência Lusa.

As feridas a que Paulo Rego se refere foram causadas por uma queda da artista, em janeiro, da qual resultou um golpe que, por ser muito profundo, teve de ser tratado com pontos. Colin Wiggins, que começou a sua carreira no departamento de desenho do Museu Britânico tendo depois passado pelo departamento de educação da National Gallery, explicou ter ficado fascinado quando descobriu esses autorretratos no ateliê da artista. E ao escutar a história de como Paula Rego remexia os pontos, atrasando a cicatrização, conta que até hesitou em pedir-lhe que esses autorretratos integrassem a exposição.

"Perguntei à Paula se, ao fazer esses trabalhos, ela estava, até certo ponto, zangada com o declínio inevitável que todos vamos enfrentar se vivermos tempo suficiente. A resposta da Paula ao que eu pensava ser uma questão séria foi simplesmente rir e dizer "Oh não, eu só achei interessante ver como é que eu estava!"", contou Colin Wiggins.

Para além de trabalhos já conhecidos das séries A Relíquia, O Último Rei de Portugal e O Primo Basílio, a exposição inclui uma série de quatro telas inéditas inspiradas nas histórias do livro de Hélia Correia intitulado Bastardia, uma narrativa que a artista considera "maravilhosa". "Eu sabia que podia usá-lo para fazer trabalho. Uma das personagens, uma menina, é violada. A avó dela fica tão transtornada que quer morrer, mas não consegue, e um menino cresce a pensar que o pai dele é o mar. No final, o céu é azul, o mar é azul e o menino é azul porque está morto. Maravilhoso", disse à Lusa.

A mostra, uma das iniciativas da Galeria Jerwood para assinalar o seu quinto aniversário, inclui ainda desenhos das séries sobre depressão, litografas de Jane Eyre, Peter Pan e Nursery Rhymes, bem como alguns dos bonecos que a artista faz em têxtil para servirem de modelos para as suas pinturas, abarcando 28 anos da carreira de Paula Rego. Para ver até 7 de janeiro.

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