Para redescobrir Trinitá e o resto do cinema italiano

10.ª Festa do Cinema Italiano propõe uma sedutora combinação de "novos" e "velhos" - Trinitá, Cowboy Insolente e dez títulos de Dino Risi são algumas das memórias a redescobrir

Será que o cinema italiano se define, antes de tudo o mais, a partir dos autores (Antonioni, Fellini, etc.) que se afirmaram ao longo das convulsões temáticas e estéticas da década de 1960? Ou o fulcro da sua identidade está nos títulos mais populares, sobretudo comédias, que marcaram a sua idade de ouro? Em boa verdade, não parece haver resposta que possa dispensar qualquer uma dessas vertentes. É essa, pelo menos, a primeira leitura sugerida pela programação neste ano proposta pela Festa do Cinema Italiano. Na sua 10.ª edição (5 a 13 deste mês), com sessões em Lisboa, Porto, Coimbra, Almada e Setúbal, a iniciativa da Associação Il Sorpasso, dirigida por Stefano Safio, propõe um panorama de feliz coexistência entre "velhos" e "novos".

O primeiro destaque vai, necessariamente, para Marco Bellocchio, um desses autores vindos dos anos 60 que sempre souberam questionar politicamente a sua Itália, fazendo-o através de histórias de perturbante intimidade. A abertura oficial da Festa faz-se hoje (São Jorge, Lisboa, 21.30) com o título mais recente de Bellocchio, Sonhos Cor-de-Rosa, uma delicada fábula sentimental vivida entre mãe e filho, expondo a inexorável passagem do tempo.

Ao mesmo tempo, este é um evento que vai voltar a mostrar precisamente uma dessas referências lendárias do cinema popular italiano. Nada mais nada menos do que Trinitá, Cowboy Insolente (1970), uma paródia aos clássicos westerns que, em Lisboa, esteve um ano em exibição no cinema Avis (a sala do Arco do Cego que já não existe). Com Terence Hill no papel de Trinitá e Bud Spencer como o seu inseparável "Bambino", o filme será projetado numa cópia de 35mm.

40 filmes a exibir

Entre competição e panorama, a Festa propõe cerca de 40 títulos de produção recente, ficção e documentário, longas e curtas-metragens. A comédia Amigos, Amigos, Telemóveis à Parte, de Paolo Gennovesi, surge com o rótulo de um dos maiores sucessos dos últimos anos em Itália (estreia portuguesa marcada para dia 24). Entre as temáticas mais curiosas surgem os bastidores de uma reunião do G8, em Políticos não Se Confessam, de Roberto Andò, e as relações entre o teatro e vida em La Stoffa dei Sogni, de Gianfranco Cabiddu, livremente inspirado na Arte da Comédia, de Eduardo De Filippo, e na sua tradução de A Tempestade, de Shakespeare.

A música volta a estar presente através de dois concertos: um dos Spaghetti Fusion Project, evocando o património de bandas sonoras de compositores como Nino Rota e Ennio Morricone; outro de Mísia, dedicado à tradição musical de Nápoles. Há também um novo "desvio" através da televisão, com a exibição integral da segunda temporada da série Gomorra.

Na secção retrospetiva, mais uma vez organizada em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, Dino Risi (1916-2008) é evocado através de uma dezena de filmes. Uma Vida Difícil (1961), A Ultrapassagem (1962) e Os Monstros (1963) são referências clássicas do seu trabalho, oscilando entre a contundência da crítica social e o puro sarcasmo. Mas será possível ver também títulos típicos da mais ligeira comédia de costumes como Poveri Ma Belli (1957) ou Sono Fotogenico (1980).

Dino Risi é, afinal, um símbolo exemplar de uma época em que a produção italiana ocupava uma posição muito mais forte em mercados de pequena dimensão (como o português). O seu estatuto escapa a qualquer cliché, cruzando o rigor de um olhar eminentemente pessoal e o gosto da dimensão mais popular do espetáculo.

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