Ouve-se Amália nos cinemas dos EUA em filme feito para atriz portuguesa

Kika Magalhães é a protagonista deste filme de terror independente, a preto e branco, que chega a Portugal em fevereiro

Aclamado em Sundance e eleito como um dos melhores filmes de terror do ano por várias publicações dedicadas à sétima arte, The Eyes of My Mother está a invadir as salas de cinema norte-americanas. A estreia começou em novembro, depois de passar pelo American Film Festival, e continuará pelos primeiros meses de 2017. É um filme independente, a preto e branco, realizado pelo norte-americano Nicolas Pesce. Não só tem como protagonista a atriz portuguesa Kika Magalhães como foi escrito de propósito para ela. De bónus, inclui o fado Naufrágio, de Amália Rodrigues, numa banda sonora sombria e fascinante.

"Sabíamos que queríamos a música da Amália", conta ao DN Kika Magalhães, que este ano mudou de Nova Iorque para Los Angeles. A cena em que se ouve a música portuguesa foi mais ou menos improvisada, lembra. O plano original não estava a correr bem, e no dia das filmagens toda a equipa estava a ouvir fados de Amália. Kika, antiga bailarina, começou a dançar por prazer e o realizador adorou. "Escolhemos essa música porque na altura era a que tinha mais ritmo para a dança. Calhou bem, porque fala da saudade e de estar sozinha numa ilha."

Filmado numa pequena cidade do estado de Nova Iorque em apenas 18 dias, The Eyes of My Mother é um filme de género; um terror lírico, diferente, lento e perturbador. "Não é para todas as audiências", reconhece Kika. Em Los Angeles, estreou no Nuart Theatre e em Nova Iorque está no IFC Center. A receção não podia ser mais calorosa para aquela que é a primeira longa-metragem de Kika Magalhães, mas a atriz mantém-se humilde. "Ainda sou uma estrela pequenita", diz.

A história trágica retratada no filme é reforçada pela aura de melancolia e fatalismo das personagens portuguesas. Nicolas Pesce escreveu o argumento a pensar em Kika, que conheceu durante a rodagem de um videoclip musical. Curiosamente, o realizador não sabia que Kika é diminutivo de Francisca quando escolheu este nome para a personagem principal. Foi pura coincidência.

Na altura, Kika estava a passar por um momento pessoal difícil, sentindo-se um pouco perdida. Tinha emigrado para os Estados Unidos há alguns anos para tentar ser atriz e as coisas ainda não estavam a acontecer. Aquilo que se vê no grande ecrã é também fruto dessa desorientação espiritual, que lhe serviu na perfeição para uma performance inesquecível.

Além disso, e em preparação para as filmagens, Nicolas Pesce obrigou Kika a ver centenas de filmes de terror, na maioria clássicos. "Estive meses fechada em casa a ver Hitchcock, David Lynch, Lars von Trier. No final já estava mesmo com vontade de matar alguém", disse na estreia do filme durante o American Film Festival, em Los Angeles.

Ao DN, explica que isto influenciou a escolha da cinematografia. "Ele [Nicolas] escolheu ser a preto e branco como forma de tributo aos filmes de terror clássicos, tipo Hitchcock. O preto e branco é mais um personagem do filme, porque a Francisca via a vida dela a preto e branco. Ela nunca viu o mar, nunca viu um arco-íris, a vida dela era só aquilo: triste."

Francisca é uma jovem mulher, filha de emigrantes portugueses que vivem no campo, algures nos EUA. A sua mãe era médica cirurgiã em Portugal e ensinou-lhe os segredos da anatomia e a fatalidade da morte. Marcada por uma tragédia, Francisca desenvolve uma curiosidade única que se transforma num quotidiano aterrador.

Apesar de toda a família ser portuguesa, os outros atores - Paul Nazak, Flora Diaz e Joey Curtis-Green - não o são, e isso será notado pela audiência nacional. Mas Kika desvaloriza o sotaque. "Isto é um filme que foi feito nos Estados Unidos para a audiência americana e por isso acho que é bom para promover Portugal e o idioma", refere. "O pessoal vai é achar que eu estou a dar uma má imagem aos portugueses", brinca, por causa da evolução grotesca da sua personagem. O público português terá a possibilidade de ver The Eyes of My Mother no grande ecrã a 23 de fevereiro, quando estrear em Lisboa e no Porto pela mão da Alambique. Estará ainda disponível em plataformas online, como Amazon Video e iTunes. Kika, natural de Famalicão, também está a negociar para levar o filme à Casa das Artes da cidade.

Los Angeles

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