Os novos vizinhos de Sines trazem casa, cantam e dançam

Até sábado, o Festival Músicas do Mundo leva uma nova vida à cidade alentejana. Depois de Porto Covo, a música sobe ao Castelo de Sines

Ainda os almoços mais tardios continuavam à mesa já a música empurrava alguns corpos ao fazer-se ouvir pelas ruas de Sines ontem à tarde. Instrumentos para todos os gostos. Violas, baterias, flautas, jambés. E muitos mais. Arrumavam-se bancas, mais e menos arrojadas, a preparar a venda de pulseiras, fios, colares, cachimbos e uma infinidade de artigos. A temperatura ia além dos 30 graus e convidava a uns mergulhos na praia lá em baixo. O areal estava cheio, sim, mas havia quem preferisse os parques de estacionamento mais próximos do castelo, onde parecem ter nascido tendas no relvado defronte às moradias. Por ali vão ficar até domingo. Tal como as carrinhas de nove lugares onde também se dorme e cozinha. Com experiência. E Festival de Músicas do Mundo (FMM) tem muitos mais. Mas também é isto.

"Cá por mim, desde que o cão não ladre de noite, podem estar aqui o tempo que quiserem", atirava Aurora, que "ganhou" seis novos vizinhos segunda-feira, quando o FMM regressou a Sines depois de ter passados três dias por Porto Covo. E a vizinhança da carrinha da frente, que acabava de lavar a loiça num alguidar respondeu que "o bicho é tranquilo", estando muito habituado a dormir no carro. Que só ladra de dia, "mas quando quer comer". Pelo que apesar dos dias agitados invulgares em Sines, a vida "decorre serena", nas palavras de Aurora.

Batem as cinco e meia da tarde. As ruas principais do centro da cidade começam a encher-se. Há quem já esteja a sair da praia e há que se sente pelo chão, enquanto alguns corpos denotam que a noite foi longa. Dorme-se deitado sobre mochilas ou toalhas indiferente ao volume da música do grupo improvisado que toca sons "afro", mesmo que os carros continuem a passar pela via e obriguem a interromper quem quer dançar.

As "litronas" de cerveja têm uma saída invulgar na loja mais próxima. A empregada está habituada. "É isto todos os anos. Está sempre muito calor e temos que reforçar o stock até ao limite", revela, enquanto o grupo do espanhol Carlos Rejas, que aproveitou o FMM para eleger Sines como destino de férias em Portugal, compra uma palete de 12 garrafas. Para cinco. Dois são hábeis malabaristas, que pararam os mais curiosos quando dominaram pequenas bolas com a cara e cabeça.

Já no auditório do Centro de Artes subia ao palco o primeiro concerto do dia. Hearts and Bones oferecem um formato intimista com voz e guitarra, visitando o blues, comparado ao fado por Petra Pais que faz o dueto com Luís Ferreira (foram fundadores dos Nobody"s Bizness, uma das principais bandas nacionais de blues). "É triste como o fado que temos, com a dor de corno", disse perante uma plateia à escuras que seguia em silêncio o desfilar de músicas que apelidou de aula de história enquadrada na "universidade da música" com que adjetivou o festival alentejano.

Mas o primeiro grande momento do dia estava agendado para o castelo, que encheu para ouvir os Retimbrar. Não se apresentam como uma banda, mas antes como um "movimento coletivo musical" do Porto que seria capaz de promover uma sessão de mãos dadas entre o público, que girou à boleia de várias rodas quando o grupo tocou uma moda alentejana. Apenas um dos ritmos tradicionais portugueses que foi revisitando ao longo da atuação marcada pelo legado popular, que está na gene do seu primeiro disco "Voa pé". Terminaram debaixo que fortes aplausos.

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