Os feios, porcos e maus de Quentin Tarantino

"Os Oito Odiados" soma três nomeações para os Óscares: melhor atriz secundária, banda sonora original e fotografia

É a William Faulkner que se atribui a expressão "na escrita, deves matar todos os teus queridinhos". Não se refere essencialmente à literatura, mas à escrita para cinema - ele próprio foi argumentista de Hollywood. Ora, esta ideia serve que nem uma luva a Os Oito Odiados, novo western de Quentin Tarantino, escritor dos seus filmes, que mais uma vez nos mostra o poder da sua pena e do seu bárbaro imaginário. Desde logo, através de um ícone religioso que domina o plano de abertura, uma cruz de Cristo envolvida em neve, que vai deixando descobrir a imensidão branca do cenário e uma diligência que se avizinha a toda a pressa, na cadência soturna do tema musical de Ennio Morricone (com nomeação para o Óscar). Nessa cruz está um desígnio de morte. Sublinha-se o aviso: este é um filme de Tarantino, que encaixa também na constatação de Faulkner, de que, na cidade do cinema, produtores, realizadores e atores adoram a morte.

Uma carta de Abraham Lincoln

Filmado na excelência de um formato usado nos anos 1950/60, o Utra 70mm da Panavision, Os Oito Odiados explora primeiro o terreno montanhoso, gélido e monocromático do Wyoming, para depois se confinar às quatro paredes de madeira de uma estalagem, a meio do percurso. O diretor de fotografia, Robert Richardson (igualmente na corrida aos Óscares), colaborador regular de Tarantino, é o grande nome nesse trabalho espantoso da paisagem do Oeste americano e na encenação dos interiores - carruagem, estaleiro, albergue - que desenham a permanente interação cismada entre as personagens. Este é um filme que não dá tréguas à pressão arterial.

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