"O punk vai salvar-nos sempre"

Entrevista a Don Letts, DJ que vai estar amanhã no Musicbox, em Lisboa

Pedro Coquenão apresenta amanhã a primeira de quatro noites em que o MusicBox, em Lisboa, se transforma em programa de rádio. Falámos com o primeiro convidado é Don Letts, DJ, realizador e voz da BBC6. E herói punk do reggae.

O que vai acontecer amanhã no MusicBox?

Vou usar a minha cultura para comunicar com as pessoas de Lisboa. Comecei a fazê-lo em 1977 como DJ num clube chamado Roxy, em Londres, e foi aí que conheci muita gente e que dei a conhecer muitas coisas, sobretudo música jamaicana. Hoje, quando tenho noites de DJ, os meus sets têm muita música com baixo muito forte, muito dub, a herança jamaicana ali na pista de dança. E era isso que já fazia no Roxy. Mas também tenho um programa de rádio na BBC6. Chama--se Culture Clash Radio. Não é feito só de música jamaicana. Muita gente acha que sou feito só de reggae e punk mas sou mais do que isso. O mundo é um sítio grande, maravilhoso, cheio de coisas interessantes. O meu programa reflete os meus gostos, que são muitos. E amanhã à noite vou estar no palco em duas partes diferentes, mais ou menos como o meu programa de rádio. Na primeira vou mostrar música que atravessa diferentes espaços e tempos. A segunda parte é a tal dose de baixo e groove pesados.

Foi a rádio que lhe despertou o interesse pela música?

Não... e sim. Nasci no Reino Unido mas os meus pais são da Jamaica. E na Jamaica a música não tem espaços e momentos definidos, é uma parte da vida quotidiana. Por mais romântico que isto possa soar, a música sempre esteve à minha volta, é mesmo assim. Na verdade, o meu pai tinha o seu próprio sound system em casa. Mas ao crescer em Inglaterra também podia ouvir o que as rádios piratas mostravam, estações como a Luxembourg ou a Caroline. Aí conseguia ouvir as outras coisas, o rock"n"roll, coisas mais alternativas, a cultura branca. Os Beatles, os Stones, os Kinks, os The Who. Tenho esses dois lados num só, negro e britânico.

A verdade é que a rádio já não desempenha a mesma função que tinha há 30 ou 40 anos.

Não, e acho que houve uma altura em que perdeu importância, mas agora é mais importante que nunca. Porque há tanta coisa, tanta oferta, que é preciso uma espécie de guia, ou um qualquer filtro, um barómetro. E claro que agora há esse tipo de coisa em formato digital, máquinas inteligentes que se adaptam aos nossos gostos, mas isso nunca vai substituir o mais importante, que é quando pessoas com os mesmos interesses se juntam, é aí que as coisas acontecem. A música provoca a mudança cultural. Fez de mim o que sou hoje e continua a trabalhar assim com muitas outras pessoas.

E era isso que queria fazer quando começou a passar música no Roxy? Motivar uma mudança cultural?

Não era algo que fazia conscientemente. Já nesse tempo o mais importante para definir o estilo e a atitude eram a roupa e a música. E entre pessoas diferentes, com origens e gostos distintos, a vontade de influenciar sempre existiu mas nunca de forma premeditada. Os soulboys, os mods, os punk rockers... E os ingleses sempre foram bons nessa combinação de estilos, numa concorrência que faz que as coisas avancem, com que nada fique parado. Ainda que no século XXI essa atitude esteja um pouco parada.

Porquê?

Quando pensamos em skinheads, punks ou os tipos do ska, tudo isso vem de um cruzamento de culturas pré-digital, muito antes da internet. Era preciso sair de casa e ir à procura de pessoas que queriam o mesmo que nós. E era desses encontros que saíam estas subculturas. Agora podemos descarregar isto e aquilo. Há muita coisa no ar mas há menos gente a olhar-se nos olhos. Gosto da era digital mas é preciso voltar a pôr pessoas na equação. Antes da internet tudo era muito mais difícil. O ritmo e o esforço são diferentes e dão diferentes resultados. A tecnologia evolui com mais força do que nós, precisamos apanhar a onda.

Mas o espírito do it yourself mantém-se, a internet ainda o tornou mais evidente.

Sim, por isso digo que temos de acompanhar a revolução digital e não interrompê-la. Foi esse DIY que mudou a minha vida e de tanta gente, foi isso que fez o punk e o que veio a seguir. E hoje, quando vemos o que é preciso para pagar uma renda, para sobreviver em Londres, por exemplo, temos a certeza de que é preciso ser punk para o conseguir. E as novas tecnologias podem ajudar muito. O punk vai salvar-nos sempre.

Ainda vive em Londres?

Sou para sempre de Londres. Continua a ser uma cidade a gerar coisas incríveis, com uma vibração difícil de acompanhar. O dinheiro é um problema sério e cada vez mais quem não tem dinheiro é como se ficasse à porta e isso vai causar alguns problemas num futuro próximo. Há um limite para o que é possível aguentar. Mas, ainda assim, a criatividade continua. Mas não há este encontro de ideias por toda a Inglaterra, onde em muitos locais parece que ainda estamos nos anos 50, onde ainda ninguém apareceu para mostrar o que se passa.

Como fez quando chegou ao Roxy?

Bom, ainda hoje se diz que eu comecei as festas de punk e reggae. Isso é parcialmente verdade. Havia outras pessoas que o faziam mas talvez com outro impacto e noutra dimensão. Os primeiros em Inglaterra a prestar mais atenção ao reggae foram os skinheads nos anos 60, quando apareceram. Foi a primeira subcultura britânica a surgir do cruzamento de origens distintas, entre a cena jamaicana e os mods ingleses. Depois, anos mais tarde, foi apropriada por uns idiotas fascistas.

No meio de tudo isto, onde está o lado que sempre dedicou ao cinema e ao vídeo?

Sempre gostei e a dada altura era uma ótima forma de ganhar dinheiro. Mas não tenho feito nada nos últimos tempos. Agora estou em negociações com a BBC para um documentário precisamente sobre o movimento skinhead. Acho que não há problema em revelar isto.

E quanto aos videoclips, deixou de os fazer?

Não querem pessoas como eu a fazê-los. Servem como anúncios para as canções e muitas das bandas e músicos que têm dinheiro para os fazer não têm nada que ver comigo, não me identifico com eles. Trabalhei com gente como os Clash e os Public Image Ltd ou Bob Marley, gente que fazia música para mudar ideias, não para mudar de ténis. Há pessoas com boas ideias e a fazer cruzamentos interessantes com as regras do mainstream. Mas este século XXI tem um problema: há coisas a mais a acontecer. E muito fica perdido no meio da poluição.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG