O Portugal em extinção está no palco do Teatro Nacional

Teatro, concertos, debates, uma revista e oficinas, uma de cestaria em vime e outra de lã fazem o ciclo que começou ontem no D. Maria com uma peça de Rui Catalão

"Portugal em vias de extinção". O nome do ciclo que começou ontem no Teatro Nacional D. Maria II é provocador. "Essa dimensão reflete aquilo que é o espírito de indignação que também está presente em qualquer artesão de barro preto de Bisalhães que insiste teimosamente, apesar de tudo na sociedade lhe dizer "isso não serve para nada". Deixa de ser um gesto puramente cultural e passa a ser um gesto político", explica o diretor do teatro Tiago Rodrigues.

Neste ciclo que vem refletir sobre questões como a desertificação do interior do país, a gentrificação ou o desaparecimento de práticas que de alguma forma definem a identidade portuguesa, contam-se, além de cinco espetáculos, cujo primeiro começou ontem, Jornalismo Amadorismo Hipnotismo, de Rui Catalão, oficinas. No próximo dia 27, Rosa e Manuel Oliveira ensinarão cestaria em vime, e no dia 10 de março, Guida Fonseca, Isabel Cartaxo e Alice Bernardo mostrarão como se faz o trabalho da lã, do velo ao tecido. "A adesão foi enorme, surpreendente mesmo. Assim que anunciámos as inscrições para cestaria, por exemplo, apareceram dez vezes mais do que esperávamos: centenas de candidaturas", diz o diretor.

Além destas oficinas, Tiago Pereira, a quem o país deve A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, terá três concertos (a 20 de janeiro, 17 de fevereiro, e 17 de março), para os quais trará o Grupo de Cantares de Carvalhal de Vermilhas ou as Mulheres do Soajo. Não se trata, por isso, de um ciclo em que a capital e seus artistas olham, a partir do Rossio, onde vive o Teatro Nacional, esse país esquecido. É ele que sobe ao palco e, simultaneamente, se vê e se discute.

"Não dizemos com paternalismos que os artistas estão a falar por aqueles que não têm voz: todos têm voz e todos podem ter voz no Teatro Nacional. O cantor tradicional alentejano pode estar no salão nobre ou na sala Garrett a cantar ao lado do arquiteto que reflete sobre o impacto urbanístico e cultural da gentrificaçao dos bairros", avança Tiago Rodrigues. E, de facto, é o que deverá acontecer nos debates pensados e organizados pela jornalista Maria João Guardão sobre "Lugares", "Coisas", e "Vidas". Além destes, está já disponível a revista Portugal em Extinção, que terá um só número e só é acessível àqueles que frequentarem o ciclo; nela, "pensadores, artistas e jornalistas" convivem com "agricultores que escrevem ensaios sobre o que é ser agricultor no interior" e demais pessoas "que fazem retratos daquilo que é um Portugal que pode estar a desaparecer.

Assistimos ao ensaio de Jornalismo Amadorismo Hipnotismo, de Rui Catalão, que estará em cena até dia 21. Os intérpretes estão sentados a uma mesa. Não são jornalistas nem atores, mas há três meses que se preparam e recolhem histórias na rua. Além destas, interessou também a Rui, que já foi jornalista, "as dificuldades que enfrentam quando não conseguem encontrar ninguém".

O grupo funcionou como uma redação, onde chegam histórias. À medida que as ouvimos, depressa a fronteira entre a esfera pública e a intimidade da pessoa (já para nós feita personagem) se esbate. Nas entrevistas daquele grupo tinha de constar a pergunta que, na cena em que todos contavam as suas histórias em torno de uma mesa, aparecia sempre como "a pergunta": já alguma vez esteve envolvido numa relação de submissão? "A mim interessa-me empurrar a linha do espaço público na direção daquilo que está escondido pelo domínio privado", explica o encenador para quem a ferramenta, o jornalismo, se tornou o centro da peça.

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