O papel do escritor convidado

Há já uma década que venho a Lisboa todos os anos. Ao princípio, tinha o fantasma de mudar de país, de deixar o Quebeque, onde nasci, e de recomeçar uma vida nova aqui, no imenso Portugal. Decidi aprender a língua. Segui aulas, mas a literatura foi essencial na minha aprendizagem. Queria falar a língua de António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares. Queria usar a língua portuguesa como uma máscara, passar despercebido. Para entender melhor o que se passava neste país. Nunca consegui. A minha máscara ficou quebequense. Se calhar, isso tudo era muito egoísta.

Não sabia exatamente qual era o meu papel. "Escritor convidado" é, a meu ver, uma definição muito nebulosa. A única certeza que tinha era que devia continuar a pensar como um escritor, nunca parar de procurar, de refletir. Portanto, caminhei muito na bonita vila de Óbidos.

Na minha vida de romancista, invento histórias complicadas, amplas, histórias de mundos impossíveis que se cruzam com a realidade. Na minha vida de escritor convidado, ainda não sabia bem o que fazer. Toda a malta do festival ajudou-me muito nisso, acolheram-me com muito calor, contaram-me muitas coisas divertidas e admiráveis, histórias que ajudam a aproveitar a vida. No dia do meu aniversário, cantaram-me os parabéns na cantina! Percebi muito melhor, depois disso, que me podia acontecer uma aventura qualquer que teria de ser contada, reinventada.

Nunca vim viver a Portugal, nunca tive a oportunidade, ou a coragem, de mudar de país. Porém, no dia dos seus aniversários, meus amigos (Julita, Carlos, Raquel, José, a senhora da cantina cujo nome não conheço, mas que cheira tão bem, todos os outros...), inventarei um conto para vocês, do qual irão se lembrar.

Escritor

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