O número 23 na vida do homem que refaz Portugal

Pré-publicação do novo livro da escritora Rita Ferro, que conta a história do avó, António Ferro: Um Homem por Amar

Quando o meu pai comprara a loja tinha 23 anos. O número da porta da casa onde nascera, na Rua da Madalena, era o 237. Fui nomeado aos 23 anos para secretário do governo de Angola. Fernanda nascera às 23h55. A sua mãe morrera com 23 anos. Em 1923, publiquei os três livros de lançamento da minha carreira literária. 1923 fora também a data de publicação do primeiro livro "sério" de Jorge Luis Borges, cuja empatia fulminante marcara a minha adolescência. Almada publicara, também aos 23 anos, o maldito Manifesto. Apresentara Salazar a Fernanda num dia 23. O meu filho António nascera em 1923. Fora no dia 23 de Março de 1935, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, que me comprometera a apoiar os artistas de vanguarda. Trabalhara para Salazar durante 23 anos. Foi depois deste inventário sortílego e de uma cólica excruciante que parti para Lisboa com uma dose de morfina e algum medo da morte, com destino ao Hospital de São José, onde sou, curiosamente, operado 23 horas depois. Salazar fala-me na véspera, precisamente às 23h00, com uma premonição aziaga, fino-me, contrariado, no dia 11 de Novembro de 1956, exactamente às 23 horas.A partir daí, a única coincidência registada foi a de que duas outras pessoas morreram nesse dia, no hospital: um guarda-republicano reformado e um rapaz de 23 anos também chamado António. Ignorava que a maior estava para vir. Como se não bastasse, o jazigo tinha, originalmente, muito antes do realinhamento que o cemitério viria a sofrer, nos anos 1960, o n.º 23, o que significa que até à sepultura, literalmente, não percebi o que a Divina Providência tentara dizer-me.