O homem que faz música dos pesadelos

De volta a Portugal, Roger Waters, o veterano Pink Floyd, assenta os concertos na época dourada do grupo que liderou. Pelo meio, vai encaixando alguma da sua produção recente, mas os clássicos dominam as duas apresentações em Lisboa

Está rendido às evidências, o sempre teimoso e inquieto Roger Waters, do alto dos seus 74 anos: para aguentar hoje uma digressão transcontinental, não pode mesmo dispensar o seu glorioso passado à frente dos Pink Floyd. Porque é nesse som e nessas canções que o grande público se revê, atravessando gerações e latitudes, pesem as boas críticas recebidas pelo álbum Is This The Life We Really Want?, lançado no ano passado, quinto de uma carreira a solo que, em matéria de novidades, se manteve silenciosa durante uma dúzia de anos. Tudo o que não é Pink Floyd nas escolhas para os concertos de Lisboa (e para o resto dos espetáculos, bem entendido) vem desse disco, com quatro presenças garantidas: Déjà Vu, The Last Refugee, Picture That e Smell The Roses. Há mais três num rol de possibilidades, dependendo das voltas ao alinhamento que Waters, mais sete instrumentistas e duas cantoras, derem por cá, já que nalguns casos antecedentes, também apareceram Wait For Her, Oceans Apart e Part Of Me Died.

Ainda assim, como o próprio protagonista tinha prometido no lançamento da atual tournée, significativamente intitulada Us + Them Tour, o que nos remete de imediato para uma das canções do mítico The Dark Side Of The Moon, quatro quintos da matéria-prima chegarão do "antigamente", mais concretamente da década de maior pujança de Waters com os Pink Floyd, os anos 70, em que extravasaram as fronteiras do "rock sinfónico", do experimentalismo e do psicadelismo para conquistarem em definitivo as massas, que passado todo este tempo, continuam a idolatrar a produção dessa era. Rendeu quatro discos fundamentais: o já referido Dark Side que, com exceção dos dois instrumentais (On The Run e Any Colour You Like) será integralmente escutado pelas plateias lusitanas; logo a seguir, Wish You Were, dedicado ao primeiro líder dos Pink Floyd, Syd Barrett (1946-2006), afastado da banda na sequência de comportamentos que acabaram num internamento psiquiátrico - além do tema-título, não deverá faltar a abordagem a Welcome To The Machine; em Animals, Waters ensaiava uma divisão da sociedade (vivia-se a era pré-Margaret Thatcher) em cães, porcos e ovelhas, assim mesmo - os dois primeiros, Dogs e Pigs, também vão figurar na longa viagem promovida pelo músico britânico; The Wall, o grande manifesto dos Floyd, não poderia faltar em diversas escalas, sabendo-se que The Happiest Days Of Our Lives, Another Brick In The Wall - Part 2 (que vai contar com uma inédita contribuição nacional, como pode ler-se à direita), Another Brick In The Wall - Part 3 e Comfortably Numb são incontornáveis, havendo ainda a hipótese (no encore) de se lhes juntar Mother. Quase de forma inesperada, Waters vai ainda mais longe, acrescentando à set list uma canção do longínquo álbum Meddle (1971), a belíssima One Of These Days. No total, se as durações em palco forem próximas das que se registam nos discos originais, é caso para prever umas duas horas muito bem passadas, naquilo que, como se confirma pelas escolhas, poderia corresponder a uma antologia do melhor dos Pink Floyd.

Do crescimento à autocracia

Trata-se, em suma, de um reconhecimento, quase rendição, de Roger Waters face ao entendimento popular de quais são os momentos maiores como criador musical. Ele foi, pelas composições, pela aventura, pelas inovações (e não só musicais, se pensarmos na teatralidade dos espetáculos ou no grafismo das capas do grupo), o maior responsável pelo crescimento dos Pink Floyd, suprindo - com vantagem, reconheça-se - a orfandade que se poderia ter abatido sobre a banda depois da queda de Syd Barrett, até aí líder incontestado e força motriz dos primeiros singles e do álbum de estreia, The Piper At The Gates Of Dawn, de 1967. No final desse ano, foi Waters quem alegadamente convidou o guitarrista David Gilmour a tornar-se no quinto Floyd, de início com funções de reforço instrumental. Em janeiro de 1968, Barrett foi remetido para o posto exclusivo de autor, deixando de integrar o elenco de palco. Em abril, foi afastado de vez, o que se refletiu logo no disco seguinte, A Saucerful Of Secrets, lançado em junho: se ainda havia uma composição de Barrett a fechar o trabalho, não ficavam dúvidas de que Roger Waters tinha assumido a liderança. Essa tomada de poder foi ficando cada vez mais à vista, não só pela percentagem de autorias como pela definição de rumo dos Pink Floyd, com o salto conhecido a partir de 1973 e de The Dark Side Of The Moon. Roger Waters era, ainda, o homem a escutar para perceber as motivações e os objetivos do grupo.

A história descamba - com algum pesar para os fãs - depois de The Wall. Chocado com Margaret Thatcher e com a guerra das Malvinas, Waters decide voltar ao tema dos conflitos (e será conveniente não perder de vista que ele perdeu o pai na II Guerra Mundial), recuperando canções que tinham sido excluídas anteriormente e escrevendo outras novas para aquilo que viria a ser The Final Cut, lançado em março de 1983. Todas as autorias são de Roger - as propostas de David Gilmour foram chumbadas sumariamente - e um dos fundadores dos Floyd, o teclista Richard Wright (1943-2008) é excluído das gravações. Por outras palavras, David Gilmour e o baterista Nick Mason, também ele parte do elenco inicial, passavam a ser "empregados" de Waters que, de seguida, se convence que os Pink Floyd eram um rio seco, estavam esgotados. Mesmo assim, a disputa pelo nome do grupo chega - imagine-se - ao supremo tribunal britânico. Gilmour (que virá a ser o terceiro líder da história da banda) e os parceiros ganham a possibilidade de prolongar a existência da banda, enquanto Waters parece mais interessado na carreira a solo, baseada nos álbuns The Pros and Cons of Hitch Hiking (1984) e Radio K.A.O.S. (1987). De alguma forma, o tempo haveria de desenganar o músico, sendo hoje evidente que a herança dos Floyd continua a valer como o seu maior ativo.

Homem de causas

Roger Waters tem três filhos e casou por quatro vezes, confessando-se, à época do lançamento de Is This The Life We Really Want? "possuído por uma nova paixão". Por mais que esse novo amor tenha pesado na conceção do disco, ele foi sempre visto - e tal nunca foi desmentido pelo autor - como um libelo anti-Trump e como uma preocupação com os refugiados de todas as espécies.

Se olharmos para a obra dos Pink Floyd, sente-se muitas vezes um empenhamento social e uma clara vontade de intervir. Waters esteve, ainda, à frente de um grande elenco - de Joni Mitchell a Van Morrison - que tocou The Wall em Berlim a 21 de Julho de 1990, numa celebração da queda do Muro, escassos oito meses depois de esta acontecer. É ativista de várias causas, com destaque para o seu apoio aos palestinianos, que já lhe valeu acusações de antissemitismo e perda de patrocínios (do Citibank e do American Express). Nesse aspeto, parece não ter emenda - e, se calhar, ainda bem. Na música, Roger Waters fez o que tinha a fazer e, para muitos, chegou bem perto do génio que, agora, legitimamente, faz render.

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