O glorioso regresso de Britney Spears

Contra muitas das expectativas, Britney Spears está de volta com um dos mais inventivos álbuns do seu percurso. Glory não é um disco de uma estrela pop em decadência, é um álbum que espelha segurança

"É muito diferente. Não é nada do que as pessoas possam esperar." Palavras que em março passado serviram para Britney Spears, numa entrevista à V Magazine, levantar um pouco do véu do que seria o seu nono álbum de estúdio. Esta afirmação poderia não passar de uma estratégia de marketing sem real fundamento, uma promessa que acabaria por não se cumprir, como tantas vezes acontece quando se quer promover um novo trabalho. Mas, desta vez, Britney Spears não enganou. Chegada aos 34 anos e contra uma expectativa geral que já não via na cantora potencial para grandes surpresas, eis que Britney lança um novo álbum de estúdio realmente diferente. Glory é, de facto, um regresso glorioso.

O nono álbum de estúdio da cantora chega três anos depois do mal-amado Britney Jean (2013). Na altura, a própria afirmou que esse era o seu "disco mais pessoal de sempre", uma frase que não ganhou eco quando o disco foi editado e o que ali se encontrou foi uma mão-cheia de canções insípidas, coladas às fórmulas estagnadas do EDM desenhadas por Will.I.Am, o produtor executivo. O álbum acabou por não ser particularmente bem recebido, nem pela larga base de fãs nem pela crítica.

Nesse mesmo ano iniciou uma residência de espetáculos em Las Vegas, no Planet Hollywood Resort & Casino, intitulada Britney: Piece of Me, e que ainda está em curso. A notícia trouxe um sabor amargo e, depois do falhanço criativo de Britney Jean, foi vista quase como uma espécie de desistência artística. E o single que lançou há sensivelmente um ano com a rapper Iggy Azealea, Pretty Girls, não ajudou a criar as expectativas mais altas.

E, no entanto, agora que está de volta aos discos lança não só um dos melhores álbuns do seu percurso (só ganhando par com Blackout, de 2007, e In the Zone, de 2003), mas um dos mais ricos discos pop que 2016 conheceu até ao momento.

A cantora decidiu não recrutar os mais mediáticos produtores e compositores do momento (como fez no antecessor). Justin Tranter e Julia Michaels (que recentemente trabalharam em muitas das canções de Revival, de Selena Gomez) foram dois dos compositores mais recrutados. Já a grande força deste álbum reside nas suas produções intricadas, repletas de pormenores sónicos que levam as canções por caminhos inicialmente inesperados, como acontece, por exemplo, em Love Me Down ou If I"m Dancing (esta só disponível na edição deluxe).

Este nível de cuidado de produção já não se ouvia desde Blackout, a obra magnânima de Britney Spears. Se, por um lado, este é um disco marcado pela fase mais negra da sua vida pessoal, altura em que enfrentou uma grave depressão que foi escrutinada e alimentada pela imprensa mais sensacionalista, por outro é um álbum pioneiro e muito influente na pop contemporânea, que veio antever várias correntes estéticas que anos mais tarde viriam a tornar-se correntes no mainstream. A edição do disco coincide com o anúncio de um filme sobre a história da cantora, produzido pelo canal de televisão americano de TV Lifetime, a lançar em 2017.

Mas o disco de Britney do qual Glory mais se aproxima é In the Zone, na forma como Britney constantemente joga e experimenta com diferentes estilos e personagens. Se a crítica, por vezes, foi ácida ao descrever as suas potencialidades vocais, ao longo das 17 canções que fazem parte deste álbum (a ter em conta a versão deluxe) é possível constatar o valor de Britney enquanto performer, alterando a própria voz e a sua tonalidade, soando a mil personagens numa só, mesmo que não alcance as notas mais altas. Mas se o faz é para servir a canção da melhor forma e existe mesmo uma entrega a estas histórias (nem sempre as mais felizes) que é louvável.

Glory não é o disco de uma estrela pop em decadência que queira, à força, integrar-se num contexto estético que não é o seu (algo que tem sido particularmente recorrente no percurso de Madonna ao longo dos últimos aos). Mas também não é um conjunto de canções estagnadas no tempo e que vivam somente de outros tempos de glória. Glory é um álbum que espelha segurança e que sabe usar em seu proveito a experiência de quase 20 anos de carreira (Baby One More Time, o seu primeiro álbum, foi editado em janeiro de 1999, há mais de 17 anos).

Essa experiência nota-se logo no tema de abertura, Invitation, em que se aventura por ambientes com um cariz mais etéreo, realçando uma sensualidade na voz que não precisa de grandes aparatos, algo aprimorado noutras canções do disco como Man on the Moon ou Just Luv Me.

Pelo menos até 4 fevereiro do próximo ano Britney Spears continuará a sua residência em Las Vegas, concluindo, então, 199 concertos desta série de espetáculos, mas, tendo em conta o primor artístico que voltou a demonstrar neste Glory, Britney está definitivamente de volta e não baixou a guarda artística.

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