O furacão Elza arrasou o Parque da Cidade

A brasileira Elza Soares esteve em destaque no último dia da sexta edição do Primavera Sound, a mais concorrida de sempre, segundo a organização. As datas para o próximo ano já estão marcadas: 7, 8 e 9 de junho.

Foi bem mais tranquilo o começo da tarde de ontem, quando comparado aos dois dias anteriores. Pela primeira vez nesta sexta edição do NOS Primavera Sound, no Porto, podia-se caminhar calmamente, beber uma cerveja sem perder metade de um concerto em filas ou simplesmente preguiçar na relva sem correr riscos de ser pontapeado ou pisado pela turba passante. Usufruir, enfim, do festival para lá do festival, que era o que a maioria do público presente no primeiro concerto do dia, o da espanhola Núria Graham, no palco Super Bock, parecia estar a fazer.

Para este início de tarde, o mapa das preferências já estava, aliás, mais ou menos alinhavado na cabeça de todos, com o X bem marcado em frente ao palco NOS, onde pelas 18.30 iria atuar a brasileira Elza Soares, do alto dos seus mais de 80 anos. A idade indefinida apenas lhe acentua a aura de lenda viva desta mulher, cujo percurso se confunde com a própria história da música popular brasileira, se bem que chamá-la assim é no mínimo redutor, porque tal soa a passado e Elza Soares continua tão atual como sempre. Ainda em 2015 lançou o aclamado A Mulher do Fim do Mundo, um álbum feito de samba, jazz, rock e hip hop, composto por canções propositadamente escritas para si, no qual discorre sobre temas como o racismo, a violência, a transexualidade ou as drogas e que "a diva da bossa negra" estava quase, quase a apresentar agora também no Primavera.

Enquanto "a cantora do milénio", como também é conhecida Elza Soares, não chegava, havia mais por onde escolher. No palco NOS, o indie rock dos portuenses Evols não parecia estar a convencer muita gente, ao contrário dos malianos Songhoy Blues, que atraíram uma muito maior e mais animada "moldura humana", com o seu rock de embalo africano a fazer toda esta gente dançar. Um último dia com menos público do que na sexta-feira, quando passaram pelo Parque da Cidade trinta mil pessoas, um recorde de afluência, segundo os números adiantados pela organização. Ontem foi também dia de serem anunciadas as datas para a edição de 2018, marcada para os dias 7, 8 e 9 de junho.

O grande responsável pelo enorme sucesso da edição deste ano teve um nome: Bon Iver. Foi em frente ao palco NOS, na noite de sexta-feira, que se concentrou a maior multidão ao longo dos três dias de festival. Mas também é de louvar o risco que o cartaz deste ano representou, ao apostar em estilos musicais até agora mais marginais à programação do Primavera Sound, como o R&B de Miguel (um dos grandes vencedores desta edição) ou as muitas derivações de hip hop e eletrónica presentes, cujo sucesso apenas vem provar o quanto as outrora bem definidas fronteiras entre as diferentes tribos musicais são hoje um anacronismo cada vez mais sem sentido.

Mas regressemos por momentos a Bon Iver, um dos melhores exemplos dessa nova realidade, a avaliar não só pela quantidade como pela diversidade do público. É certo que o intimismo da música dos americanos não será o mais indicado para tais magotes de gente, por vezes demasiado dispersa em conversa, cerveja e outros convívios quando eram tocados os temas do último álbum, 22, A Million, mas sempre disponível para a merecida e ruidosa consagração, mal se ouvia o início de êxitos (chamemos-lhe assim) como Holocene, Calgary e, claro, Skinny Love. Mais ou menos à mesma hora, era bem diferente o ambiente em frente ao palco Ponto, onde os americanos Swans debitaram, de enxurrada, toda a força do seu rock experimental, perante os milhares de fiéis que os acompanharam nesta viagem multissensorial, que condensou em duas horas mais de três décadas de carreira do grupo liderado por Michael Gira.

Entretanto é tempo de voltar ao presente, mais em concreto ao palco Super Bock, onde a brasileira Elza Soares já está pronta para começar, perante a multidão, mais uma, que cobre por completo toda a encosta. Sentada numa espécie de trono que lhe serve de púlpito, mal esta mãe de santo imortal começa a pregar a sua mensagem, nada mais existe à volta. "Façam barulho, batam palmas", pede. Como se tal fosse necessário, perante a chegada do furacão Elza ao Parque da Cidade, que ontem recebeu mais um daqueles concertos para mais tarde recordar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG