O filme-choque de Paul Verhoeven

O Festival de cinema de Cannes anuncia hoje o vencedor da competição, mas a interpretação de Isabelle Huppert já convenceu.

Será que a apresentação de um filme-choque faz parte da tradição do Festival de Cannes? Não é coisa que esteja escrita nos estatutos do certame, mas convenhamos que há toda uma apetência mediática nesse sentido... No ano passado, a função terá sido cumprida por Love, de Gaspar Noé, em boa verdade uma provocação pueril apenas apostada em relançar a sempre eficaz oposição entre "erotismo" e "pornografia". Neste ano, as expectativas apontavam para Elle, primeira produção francesa assinada pelo veterano holandês Paul Verhoeven (recentemente homenageado no IndieLisboa). Afinal de contas, a sinopse oficial sugeria que a personagem central era uma mulher independente, dessas a "que nada parece abalar", até que um dia é violada na sua própria casa...

Digamos, para simplificar, que para além da agitação efémera dos rótulos mais ou menos "escandalosos", o filme é um pequeno prodígio de inteligência narrativa, possuindo as qualidades necessárias e suficientes para sobreviver aos efeitos daquela agitação - fica mesmo como um dos momentos altos desta 69.ª edição do certame, não sendo arriscado supor que, de uma maneira ou de outra, estará representado no palmarés a ser divulgado hoje ao fim da tarde.

Elle aposta numa estratégia até certo ponto semelhante à que Verhoeven punha em prática no seu filme mais famoso, Instinto Fatal (1992). Nesse caso, Sharon Stone polarizava todos os pontos de vista, virando do avesso um esquema policial que, em última instância, desmontava os preconceitos correntes do olhar masculino. Desta vez, Isabelle Huppert começa por ser o objeto indefeso de uma brutal violação (logo na cena de abertura) para, a pouco e pouco, escapar ao estatuto de vítima que as relações sociais - e as matrizes dramáticas do próprio cinema dominante - lhe destinam.

Assistimos, então, a um verdadeiro jogo de escondidas, encenado com destreza e sofisticação, em que tudo e todos (incluindo, claro, o espectador) são desafiados a questionar a sua perceção do feminino e, inevitavelmente, as certezas correntes sobre as relações masculino-feminino. E se outras razões não houvesse para celebrar o misto de crueza filosófica e ironia moral de Elle, a prodigiosa composição de Huppert bastaria para conferir ao filme de Verhoeven uma dimensão invulgar. Não será surpresa para ninguém se a virmos a receber o prémio de interpretação atribuído pelo júri presidido por George Miller - se tal acontecer, será a terceira vez em Cannes, depois de Violette Noziere (Claude Chabrol, 1978) e A Pianista (Michael Haneke, 2001).

Verhoeven reaparece, assim, como um cineasta capaz de reinvestir modelos de espetáculo mais ou menos clássicos, introduzindo-lhes variações tão inesperadas quanto envolventes. O mesmo poderá dizer-se, por exemplo, do veterano francês Paul Vecchiali, presente na seleção oficial (extraconcurso) com Le Cancre, deliciosa revisitação de um cinema intransigentemente romântico, ligado à tradição do musical e celebrando algumas das musas do cinema francês - dedicado à memória de Jacques Demy, integra no elenco os nomes de Francoise Arnoul, Edith Scob e Catherine Deneuve.

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