O dia da mãe é quando Charlize Theron quer

Tully, de Jason Reitman, comédia dramática sobre uma mãe que perdeu a alegria de ser mãe. Trata-se de um dos filmes deste semestre

Ternura dos 40 ou tormento dos 40? Na nova colaboração entre o trio de Jovem Adulta, o realizador Jason Reitman, a argumentista Diablo Cody e a atriz Charlize Theron, sai um filme que prova que os quarentões têm ainda dores de crescimento. Tully é um retrato de uma mulher que acaba de ter o terceiro filho, uma mãe de família que terá abdicado de uma vida com outras aspirações para encetar um projeto familiar. Marlo está cansada, à beira de um esgotamento e sem alegria no ato de criar um novo bebé. Tudo muda quando o seu irmão a convence a aceitar um presente: uma ama noturna para cuidar do bebé durante a madrugada. Tully é o seu nome, um millennial que ajuda Marlo a uma reinvenção pessoal.

Escrito com instinto feminino e uma sinceridade brutal (nem em Juno tocava tão bem nas peças reais que fazem o sentido da vida), Tully é daqueles presentes divinais para uma atriz sem medo de envelhecer nem de mostrar uma barriga que quase rivaliza com aquela que mostrava em Monstro, uma Charlize Theron num interpretação que parece dizer em alto e bom som que está presente para a próxima temporada de prémios. Depois, há também uma coleção de grandes ideias de mise en scène de Reitman, cineasta que parece sempre perito no equilíbrio entre o drama e a comédia e que aqui é capaz de inventar achados visuais de gosto relevante.

Amamentação, mudança de fraldas, alimentação pós-parto, instinto maternal, descompensação sexual, fadiga de uma vida apenas centrada na família e depressão são tratados como um carrossel de emoções sempre excitante. Como não é costume em Hollywood, o ponto de vista é genuinamente feminino, sem filtros. A junção Diablo Cody e Jason Reitman volta a dar-nos personagens que são pessoas a sério. Gente que sente sem clichés, que tem fantasias falhadas e que entra em curto-circuito com a rotina da vida real. Mas o que faz disto um caso à parte é precisamente a personagem da ama, uma espantosa Mackenzie Davis (que conhecíamos de Perdido em Marte, de Ridley Scott e da série Black Mirror), personificação de um anjo moderno, capaz de falar de sexo, beber copos e fazer a lida da casa. O cinema americano moderno está a precisar de anjos...

Tully é um filme negro e luminoso sobre a experiência gloriosa de ser mãe, mas é sobretudo um manual para aprendermos a amarmo-nos (e a expressão está literalmente no guião). Importa também referir que outro dos valores "experimentais" do projeto está na implementação de uma reviravolta final, o chamado "twist" que pode colocar em causa certas perceções e que costuma ser mais usado em géneros como a comédia ou o thriller. Diremos apenas que é um "twist" que está do lado do coração...É a melhor coisa que poderia ter acontecido ao cinema de Hollywood que ainda repensa o melodrama.

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