O desconforto como razão da escrita

Três autores premiados, Eleanor Catton, Sofi Oksanen e José Luís Peixoto, explicaram as razões porque escrevem de uma ou de outra forma. Astrologia, Estónia e Coreia do Norte estiveram presentes entre afirmações polemicas.

Uma citação de David Foster Wallace foi o tema para a discórdia que subiu ao palco do Teatro Baltazar Dias na segunda sessão do Festival Literário da Madeira. A frase era "O trabalho da boa ficção é confortar o perturbado e perturbar quem está confortável".

Mas Eleanor Catton não concordou com ela pois 'não podemos ser ingénuos quanto ao que um romance pode dar', Sofi Oksanen também não porque a ' ficção não pode estar ao serviço das vendas dos livros' e José Luís Peixoto referiu o 'perigo de se apresentar obrigações para a literatura'.

A partir daí a moderadora Ana Daniela Soares questionou a razão de cada porque cada um dos autores faz questão de escrever. Peixoto avisou que era uma pergunta perigosa mas Catton avançou e confessou que entender o mundo era uma boa razão enquanto Oksana referiu que é uma necessidade de sempre. Quanto ao português, lá acabou por dizer que, neste momento, era uma forma de transmitir algo positivo. 'Daqui a um mês a razão será diferente', avisou.

Recentrado o tema do debate no que é o mote do festival, "A liberdade de expressão", Catton defendeu que "os romances sejam livres" e que pretende escrever sempre com liberdade. Para Oksanen, cujos personagens vivem quase sempre sob opressão, é importante 'ponderar a diferença entre viver em países democráticos e repressivos, bem como perceber a importância do passado', designadamente no cenário preferido dos seus livros, o da Estónia. Peixoto, que escreveu sobre a Coreia do Norte, considerou importante conhecer realidades diferentes em vez de se manter na zona de conforto.

Durante mais de uma hora os temas foram fluindo de forma muito diferente segundo cada autor. Catton valorizou a importância da astrologia no seu romance Os Luminares e na vida real, Oksanen elegeu a ciência e a descrença religiosa como determinantes para o comportamento dos seus personagens e Peixoto comentou o símbolo do exótico que certos países representam devido ao turismo. E continuaram com a tomada de pulso da realidade mundial atual. Catton explicou que, não podendo ter intervenção no Brexit ou na eleição de Trump, por não poder votar nesses países, sente um stress diário porque a democracia pode estar em perigo. Oksanen defendeu que os livros são cada vez mais importantes para evitar o engano provocado pelas fake news e a repetição até à exaustão das tragédias na televisão que diminui a empatia perante causas importantes. Para Peixoto, o grande desejo dos escritores é que os seus livros sejam universais e intemporais, porque só assim é que "dizem respeito à natureza humana", opondo se ao jornalismo que 'apenas atualiza o mundo todos os dias'.

O Festival Literário da Madeira continua até sábado, dia em que três sessões debaterão as grandes questões do momento sobre a liberdade de expressão na literatura e no jornalismo com a participação de representantes de ambas as profissões.

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