O corpo-música no novo flamenco de Israel Galván

Fla.co.men estreia nesta noite e amanhã, pelas 21.00, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Uma nova forma de dançar

O corpo é sempre o seu instrumento. Mas aqui o que se pretende é que o corpo seja também um instrumento musical que Israel Galván escolhe incluir no seu concerto. "Quero que o meu corpo adote uma postura livre", conta ao DN, assim que aterra em Lisboa. Bailarino e coreógrafo espanhol, com inúmeros prémios de dança e outras aclamações, é hoje considerado por muitos como uma das figuras mais invasoras do flamenco contemporâneo. Nas noites destas quinta e sexta-feira, pelas 21.00, Israel Galván orquestra um espetáculo único que perpassa as fronteiras do flamenco tradicional, vestindo a pele de bailarino e performer em simultâneo. Incorpora no seu "flamenco livre", como gosta de lhe chamar, todas as influências dos seus contemporâneos da dança, sem esquecer os mestres tradicionais.

O corpo de Israel Galván fala-nos através do som, juntamente com os instrumentos dos músicos: é vento, metal e cordas, sem esquecer a percussão. A fusão é algo recorrente nas obras do coreógrafo. Tambores africanos com ritmos cubanos, melodias antigas com contemporaneidade, mas apesar de todas as misturas, o real flamenco continua bem vincado. Em Fla.co.men, que traz ao Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, ele é o mestre da verdadeira reinvenção do flamenco em palco acompanhado de um grupo de músicos, seis no total. "O principal mote deste trabalho é um apelo a um flamenco muito livre. São vários músicos que cruzam várias influências contemporâneas - o flamenco enreda-se também no som da água e do corpo humano -, tento trazer uma espécie de percussão muito pessoal. Tento bailar com a minha própria música, gosto de dançar em silêncio com a música", explica ao DN.

Israel Galván, 43 anos, traz pela primeira vez a Portugal este espetáculo da sua autoria na direção, coreografia e interpretação que estreou há dois anos na XVIII Bienal de Flamenco de Sevilha. É, aliás, Sevilha a sua terra natal, de onde vem duma família de bailarinos que desde sempre o habituaram aos tablaos, festas e academias de baile. "Danço desde os 5 anos, para mim dançar é uma forma de vida", assume. Considera-se uma pessoa tímida e assegura sentir no flamenco, um "bálsamo transformador". "Tento passar para o baile também essa ideia de liberdade", declara.

Um bebé nos ensaios

Na sala de ensaios, é no mais profundo silêncio que Israel vai começando a sapatear. Queixa-se de que o chão está escorregadio, mas não parece que lhe dificulte a tarefa no voltear do corpo e, seguramente, na vontade de bailar. Vestido de preto, os músculos das pernas saltam à vista nas calças colantes que vestem o movimento singular dos passos. Ainda está sozinho, mas os músicos não tardam a chegar. Saxofone, baixo, violino, guitarra e muitos géneros de percussão, entre outras surpresas, todos se vão reunindo para o ensaio liderado por Israel.

É com a guitarrista que também toca violino que vai dialogando ritmos e expressões. Ela responde-lhe à letra e os restantes acenam, enquanto alguém inicia o cante, e no segundo à frente, as palmas já estão sincronizadas. Trocam impressões sobre velocidades, enquanto a bebé do técnico Pablo Pujol acompanha o pai e segue atentamente os estalidos dos dedos de Israel. Com apenas 9 meses, não parece estranhar o ambiente, pelo contrário. Amparo Hernández, a tour manager, diz que parecem todos hippies, correndo estrada há vários meses, e que a bebé já conhece vários países.

Entretanto, voltamos a Israel que pergunta como se diz tortilha em Portugal. Embrulha as mãos para exemplificar. Todos se riem. Ficamos confusos. Agora é o próprio que canta e todos seguem em coro. A avaliar pelo ensaio, o flamenco tem muitas caras aqui. Fla.co.men promete ser muito mais do que um espetáculo de flamenco tradicional.

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