O arquiteto que ocupou a torre como lição de arquitetura

Lisboa lança o debate sobre como adaptar os edifícios a novos usos na conferência internacional da Docomomo. Juan Domingo Santos contou a sua história

O Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, recebeu ontem uma salva de palmas. Não falta o sujeito na frase, foi mesmo o edifício que foi aplaudido na sessão inaugural da 14.ª conferência do Docomomo, uma organização, atualmente sediada em Lisboa, que trabalha para preservar a arquitetura moderna.

Ana Tostões, arquiteta e presidente da instituição, dava as boas-vindas à plateia poliglota que ocupava as cadeiras de veludo laranja e pediu um aplauso para aquele "perfeito exemplo" de reúso adaptativo da arquitetura (o tema da conferência é Adaptative Reuse): inaugurado em 1969, foi restaurado e renovado em 2013, com os preceitos de conforto, segurança, poupança de energia, mantendo as características do auditório.

O arquiteto espanhol Juan Domingo Santos ocupou então o palco. O programa previa que apresentasse com Álvaro Siza Vieira o projeto para a porta do Alhambra, em Granada, Espanha, com que ganharam o concurso público em 2011. Mas o Pritzker português não veio e coube ao espanhol mostrar o trabalho de ambos. Como os desenhos que Siza ia fazendo nas visitas ao palácio foram ajudando a definir o programa do projeto. Traços descontraídos numa folha, "desenhos de prazer", diz Santos. Que, no fundo, eram esquemas de circulação, e estava ali a chave do problema.

Deslindar os lugares

A dupla acabou por criar um espaço para receber os três milhões de visitantes anuais do monumento, solucionando a questão do trânsito e do acesso do público, integrando o palácio do século XIV num programa contemporâneo. Como? Criando um projeto de circulação num edifício "praticamente enterrado" - que não domina nem é dominado pela arquitetura "muito sofisticada" do Alhambra. Contou que para Siza este foi um projeto muito importante. "Álvaro Siza disse que não há nada a reivindicar com esta arquitetura, há que resolver um problema."

Juan Domingo Santos, 55 anos, fala com um timbre claro enquanto na plateia alguns tiram notas e muitos fazem desenhos. Há indisfarçáveis estudantes de Arquitetura de várias nacionalidades que seguem a intervenção.

Ele que já tinha dito "creio que a arquitetura não se inventa, descobre-se através das nossas experiências e dos nossos sonhos", e eis que conta como ocupa há 30 anos a torre de uma fábrica de açúcar abandonada em Granada, a sua cidade natal. Tudo começou quando, estudante de Arquitetura em Sevilha, viajava de comboio entre as duas cidades - e o comboio passava tão perto daquela torre no meio de edifícios industriais. Juan Domingo diz que sonhava que um dia poderia ter ali o ateliê, como via fazer em edifícios industriais em Londres ou nos Estados Unidos. Até que um dia, uma manhã de junho de 1985, saiu do comboio e entrou no gigantesco emaranhado de edifícios. Começou a fazer uma peculiar apropriação do local - ainda sem saber. Fez aquilo a que agora chama "mapas de experiência". Tirava fotos, mandava postais a si próprio a contar histórias que podiam ter acontecido ali. Diz que reconstruiu a história da fábrica com os objetos que foi encontrando e usando a intuição. Não quis saber a história escrita. "Quis deslindar o lugar como se fosse um sítio desconhecido para a humanidade que se descobre pela primeira vez." A 16 de março de 1986 ocupou a torre com o estúdio de arquitetura e ali permanece. Arranjou as janelas e fez uma varanda para ver passar o comboio. Acredita que na arquitetura há "uma série de elos que têm de ser descobertos."

Ana Tostões apressou a assistência: o maestro Gustavo Dudamel precisava do auditório para ensaiar (concerto hoje e amanhã, às 21.00). E deixou a pista: o caso do espanhol dá que pensar, por exemplo no complexo da Manutenção Militar.

Veja o documentário de Juan Sebastián Bollaín sobre Juan Domingo Santos e a torre: