Nuno Saraiva: ilustrações dos Mata Ratos à Severa

Exposição do ilustrador inaugura hoje na Festa da Ilustração de Setúbal

Um monte de ratos em delírio colorido a assistir ao concerto de uma banda de rock. Era assim a capa de Rock Radioactivo, o primeiro disco dos Mata Ratos. E que foi também o primeiro trabalho como ilustrador de Nuno Saraiva, na altura com 20 anos. "Eu cresci em Almada e o baixista da banda, que era meu colega da escola, convidou-me em 1989 para fazer a capa", lembra. Nessa altura, já trabalhava, embora pro bono, para O Combate, um jornal ligado ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). E pouco depois foi convidado para colaborar com o jornal satírico O Inimigo e para trabalhar em O Independente, que também estava a começar. Foi uma entrada em grande no mundo profissional. "Logo de rajada."

A capa do disco é uma das obras que vai estar na exposição, intitulada Fónix, que Nuno Saraiva inaugura esta noite, integrada na programação da Festa da Ilustração de Setúbal. Uma exposição que não chega a ser retrospetiva, mas é quase: "Não quis mostrar aqui banda desenhada e também propus não apresentar ilustrações desse primeiro período do meu trabalho, até 2005", explica.

De fora, ficam, portanto, a famosa Filosofia de Ponta, que assinou com Júlio Pinto n"O Independente e todas as ilustrações desse período que o tornaram um dos autores mais conhecidos do país. "O Independente foi uma escola." Além de tudo o que aprendeu sobre o modo como se fazem jornais e a ilustração de artigos sobre a atualidade, aquele "foi um espaço de trabalho musculado, todos os dias fazia ilustração, era um semanário mas o jornal saia com pelo menos quatro ilustrações minhas mais a Filosofia de Ponta", recorda. E hoje, com um olhar mais crítico, admite: "Fazia muita ilustração um bocadinho a granel, descurava um bocadinho a qualidade, fazia de tudo."

E foi também por isso que preferiu mostrar nesta exposição a obra mais recente e "madura". "A partir de 2005 começo a ter um outro tipo de trabalho, menos veloz. Talvez tenha a ver com a idade. A minha vida mudou muito nessa altura e as ilustrações também. Criei uma palete cromática que se mantém até hoje e uma linha um tanto ou quanto barroca, que rompe com o meu trabalho editorial até então."

Muito presentes na exposição vão estar, portanto, as ilustrações que Saraiva tem feito sobre Lisboa, sobretudo sobre os bairros populares e o fado. Começou tudo por um desejo antigo de conhecer melhor as suas "origens", uma vez que apesar de ter crescido na outra margem, nasceu na Clínica de São Cristóvão, na Mouraria. Há oito anos envolveu-se na associação Renovar a Mouraria, ajudou a pôr a associação de pé e continua a montar arraiais e a servir imperiais no bar da associação. "Trabalho como voluntário mas acabei por ficar também como responsável pela parte visual e comecei a desenhar as pessoas do bairro, aquele ambiente das tabernas e do fado, idealizei uma Severa, desenhei o Fernando Maurício." Daí até começar a fazer as capas da Time Out sobre bairros populares foi um passo pequeno. E no ano passado e este ano foi ilustrador das Festas de Lisboa, numa procura de recriação das figuras típicas da cidade.

Pelo meio, Nuno Saraiva acabou por se apaixonar pelo fado, que tem sido um tema recorrente no seu trabalho - e vai continuar a ser, o autor está a planear uma história ilustrada do fado. Antes disso, vai fazer O Fado das Trincheiras, que será editado em 2018 para coincidir com os 100 anos da batalha de La Lys: "Será um livro sobre a nossa presença na guerra mas com um fadista como personagem principal, uma personagem fictícia que vai conhecer o cabo Adolf Hitler, o condutor de ambulâncias Ernest Hemingway e outras figuras. Há muito tempo que queria fazer um épico em banda desenhada e vai ser agora."

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