Nicolas Cage e Dafoe estão loucos e sedentos de sangue

Violência demente e com jogo de distanciação irónica. Cannes assistiu a Dog Eat Dog e The Neon Demon

A Quinzena dos Realizadores despediu-se ontem com um filme de encerramento "sob influência": Dog Eat Dog, um dos projetos mais tóxicos e violentos vistos no festival. O regresso de Paul Schrader à boa forma depois de muitos problemas nos últimos anos (Vingança ao Anoitecer, de 2014, chegou a ser mutilado pelo seu produtor).

Nicolas Cage e Willem Dafoe numa espiral de sexo, drogas e sádica violência no submundo da criminalidade Cleveland. A história de três amigos criminosos que depois de saírem da prisão tentam voltar ao mundo do crime e arriscam um golpe grande. Um rapto de um bebé filho de um criminoso. O sequestro começa logo de forma errada quando acidentalmente rebentam a cabeça de quem poderia pagar o resgate.

Baseado no livro de Ed Bunker, Dog Eat Dog não atropela o universo literário do autor. Schrader filma a violência americana com um rigor de conto policial clássico, mas visualmente experimenta uma liberdade formal resultante de uma rodagem em molde low budget. A cereja no topo do bolo chega com atores despedidos de amarras ou tiques. Temos direito a um Mad Willem Dafoe, num dos psicopatas mais fascinantes dos últimos anos e um Nicolas Cage a mostrar que quando quer é ator. Um filme com uma insanidade tão subversiva como sádica sem nunca dispensar um humor cinéfilo - a personagem louca de Cage é obcecada por Humphrey Bogart.

Depois, há também desvios contemporâneos. Diálogos amorais com cultura pop, ou seja, o homem que escreveu Taxi Driver a fazer à Quentin Tarantino. É verdade que o resultado é errante, narrativamente é um objeto desgovernado mas causa um fascínio estranho, estranhíssimo. Estes assassinos querem mudar de vida, mas enquanto isso também querem mais um risco de cocaína, mais um disparo, mais um passo para o inferno. Dali ninguém sai vivo.

O que se passa com Widing Refn?

Na competição, um dinamarquês provoca. Mas Nicolas Winding Refn provoca como uma criança mimada. Parte a louça de forma elefantina em The Neon Demon, uma comédia disfarçada de cinema de terror. Uma caricatura ao mundo da moda de Los Angeles, onde se mostram as modelos magras, os estilistas afetados e as agências de modelos snobs. Depois, sugere-se um great lesbian show em formato de produção de moda.

Imagens estilizadas que foram recebidas com assobios nos visionamentos de imprensa. Mas o problema nem foram os apupos, foram as gargalhadas de troça. Seja como for, The Neon Demon (já comprado para Portugal) tem um trunfo que já ninguém tira: filmar a dotada Elle Fanning como uma ninfa. É pouco para um filme desconjuntado, que só aqui e ali nos devolve algum do controlo estético de Refn sem cair no ridículo (as cenas de necrofilia ou de canibalismo parecem etiquetas a cair). Enfim, um desvario muito tolo de um cineasta que precisa de um produtor. Ou estamos todos muito atrasados ou é o filme que está à frente do seu tempo...

The Neon Demon é mais um título que nos EUA vai ser lançado pela Amazon. A televisão por streaming parece ter tomado conta da seleção oficial.

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