Natália Correia: a Europa na pele e a utopia na alma

A Ponto de Fuga reedita Pensei Que Era Europeia, relato de viagem aos EUA em 1950, e Entre a Raiz e a Utopia: dois "livros irmãos" no dia em que passam 25 anos da morte de Natália Correia

É uma voz imensa, a de Natália Correia. A escritora, poetisa, política, mulher de gestos largos e palavras jorrantes morreu há 25 anos. Parte desta voz permanece por desbravar, no arquivo Natália Correia, depositado na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, em São Miguel, nos Açores. Ali estão depositadas cartas, manuscritos, discursos políticos, fotografias: 23 234 documentos, exatamente. Dali saíram dois livros, que hoje chegam às livrarias: Descobri Que Era Europeia e Entre a Raiz e a Utopia. Duas edições com a leitura crítica de Ângela de Almeida. Investigações inicialmente desgarradas e independentes, que acabam por se ligar: com a leitura da correspondência, inédita, entre a escritora e António Sérgio, é desvendada a razão da viagem que, em 1950, com 26 anos, Natália faz aos Estados Unidos - e que verteu no ensaio Descobri Que Era Europeia. Há uma linha quase invisível que os liga.

É Ângela de Almeida quem a desvenda, quase 70 anos depois: Natália embarcara com a missão de estabelecer contacto com o presidente do Partido Socialista americano, Norman Thomas, para lhe pedir colaboração para a luta pró-democrática que se desenvolvia em Portugal. Fazia-o a pedido do pedagogo e corporativista António Sérgio, e não apenas numa viagem para conhecer a família do marido - William Creighton Hyler, meteorologista da TWA em Lisboa, com quem se casara dois anos antes em Marrocos (e de quem não tardaria a separar-se).

"O que me fascinou mais no início desta investigação foi descobrir, por um lado, a grande amizade, a partilha de um ideal para a humanidade e para Portugal entre ela e António Sérgio, porque esse é um lado da Natália Correia que muita gente não conhece. Os ideais humanitários presidiam a toda a escrita dela, este é o subsolo de toda a escrita dela. Outra coisa muito interessante é como é que ela, com 26 anos de idade, recebeu a confiança do António Sérgio para ir com uma missiva aos Estados Unidos."

Ângela de Almeida, faialense de 59 anos, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, defendera em 2005 a tese de doutoramento sobre Natália Correia. Assina agora a introdução e as notas destes "livros irmãos" - como lhes chama o editor da Ponto de Fuga, Vladimiro Nunes, após uma incursão no fundo Natália Correia depositado em 2012 na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (e disponível desde 2014 após inventário). "Ela, como era inteligente e sábia, deixa um rastilhozinho muito leve no livro. Quase na página 300 e não sei quê ela escreve "estive com Norman Thomas"."

Foi cruzando com os escritos sobre António Sérgio que a investigadora estabeleceu a relação: "Neste texto confessional dela, onde dizia "eu fui porque levava uma missão do António Sérgio..." Ele queria implantar em Portugal o modelo do partido Socialista de Norman Thomas. Não é do Partido Socialista atual, era daquele Partido Socialista daquela altura." Mas as notícias não foram as melhores: "(...) o líder socialista meteu-me no seu carro e disse: "Vamos dar uma volta." A resposta foi efetivamente desanimadora. Norman Thomas passeou-me por bairros onde a prosperidade estacionava às portas em sumptuosos Cadillacs, fez-me entrar em casas recheadas de confortos que para o proletário português seriam desmedidos luxos e concluiu: "É este o nível de vida do operário norte-americano. Uma massa alienada pela abundância com que o reformismo capitalista a subjugou. Diga ao nosso Sérgio que, aqui, o socialismo é pregação no deserto"", escreve Natália Correia.

Ela voltou "tristíssima", defende a investigadora, para quem a escritora tinha um "ideal utópico para o mundo, acreditava que havia uma grande ideologia, que era a ideologia do amor, que a conduz ao cooperativismo e à fraternidade que é a base de todo o pensamento dela".

Um fundo relevante

Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga, que dá à estampa os dois títulos em edições cuidadas - Descobri Que Era Europeia (reedição) e Entre a Raiz e a Utopia (inéditos) -, destaca a atualidade do texto da viagem aos EUA: "Estávamos na presidência do Truman, é o início da era McCarthy. É uma altura muito controversa também da história dos próprios Estados Unidos, que no fundo ecoa no que se passa hoje. Natália vai num processo de autodescoberta e de tentar perceber que sociedade é aquela, há de facto muitas reflexões que fazem todo o sentido, até alguns pontos de contacto entre os contextos históricos", sublinha. Um discurso perene, acentua Ângela de Almeida.

Na viagem, a escritora sublinha as diferenças entre a Europa e a América, enfatizando as diferenças culturais, e afirmando a sua identidade europeia por oposição ao american way of life - com uma força que dá um título certeiro ao livro (em que termina o prefácio com a frase "este livro sou eu", como se dúvidas restassem). Esta edição junta duas viagens posteriores aos EUA, uma feita em 1978 e outra em 1983 (quando foi representar o então Presidente da República, Ramalho Eanes, no Dia de Portugal).

A Ponto de Fuga nasceu há três anos, precisamente com um livro de Natália Correia: Não Percas a Rosa. A editora, instalada na Rua de Ponta Delgada, em Lisboa, quer continuar estas edições: "Numa próxima etapa estamos a pensar recuperar inéditos sobre estas temáticas, o universalismo, a portugalidade, da relação de Portugal com o mundo, recuperar um pouco esta linha interventiva da Natália, que é uma voz que, tendo-se calado há 25 anos, nos continua a fazer muita falta." Vladimiro Nunes assume: "Tentámos recuperar a obra da Natália que estava um pouco mais esquecida e ter o cuidado de fazer algum trabalho de fundo com o espólio que está depositado nos Açores. Queremos trazer às edições algo mais além do texto. Há umas pérolas ainda por desbravar ainda dentro daquele espólio."

O fundo Natália Correia, na biblioteca de Ponta Delgada, gera muita curiosidade. "Existe uma procura intensa, são várias as solicitações, sobretudo de manuscritos e de correspondência. É muito interessante e muito importante para a segunda parte do século XX. Ela escreveu muitos ensaios e também escreveu muitos discursos políticos, muitas intervenções no Parlamento, e com alguma regularidade é solicitada a digitalização de parte do fundo", disse ao DN fonte daquela instituição.

O espólio da escritora, poetisa e deputada (do PPD, entre 1979 e 1983, e do PRD como independente de 1987 a 1991), nascida na Fajã de Baixo, São Miguel, a 13 de setembro de 1923, foi doado à Região Autónoma dos Açores por sua vontade expressa. Na biblioteca de Ponta Delgada estão não só os escritos, mas também toda a sua biblioteca pessoal - assim como o espólio de Dórdio Guimarães, seu marido (desde 1990). Após a morte de Dórdio, em 1997, coube a Helena Roseta, primeira testamenteira, fazer o inventário dos bens do casal. Entre as peças há várias de obra de arte - atualmente depositadas no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada. Antes de viajarem para os Açores, foram mostradas numa exposição no Palácio Galveias em Lisboa, em 1999 - Natália - Poesia e Arte. Contempla obras de Almada Negreiros, Artur Bual, Cruzeiro Seixas, Dórdio Gomes, Mário Cesariny, Júlio Pomar e Vieira da Silva, entre outros, assim como o famoso busto de Natália Correia, da autoria do escultor Martins Correia.

Natália Correia morreu a 16 de março de 1993 em Lisboa. Vivia na capital (desde 1934), na Rua Rodrigues Sampaio, a casa cheia de escritos e de arte, onde Natália recebia os amigos e fazia tertúlias, noite dentro. Tal como o famoso Botequim, na Graça. O sítio onde um dia Natália mandou calar o piano (como sempre fazia, quando assomava um conterrâneo) para receber a açoriana Ângela. E lhe disse, perante o entusiasmo da universitária, com um livro sobre o poeta Eugénio de Andrade acabado de escrever: "Só sobre mim é que a minha terra não faz nada."

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