Não se preocupem com a Wasted Rita, ela está OK

A artista chamou à sua nova exposição As happy as sad can be, mas depois apercebeu-se de que "triste" não era a palavra certa. "É só OK", explica Wasted Rita enquanto guia o DN pelo quarto, cinema, e rua que criou

"Não sei se tinha piada em pequena, mas era uma pessoa bué calada que, se falasse alguma coisa, era para irritar, provavelmente de uma forma cómica, sim. Quando falava, dizia algo que provocava uma reação." Imaginem-se as frases mordazes de uma Wasted Rita em ponto pequeno e talvez fiquemos com uma ideia de quem era essa criança que, em casa da avó, não ia brincar com os primos: ficava a pintar na sala. "Tinha uma obsessão muito grande por fundos de mar, peixes e plantas marítimas, e barcos", conta. E pode não ser óbvio, admite, mas a exposição que mostra na galeria Underdogs até 18 de novembro, As happy as sad can be, parte daí, do bem-estar que lhe dá o mar. "Esta exposição é precisamente sobre tudo aquilo que me dá vontade de viver. São coisas que me aliviam de alguma forma, como o oceano."

Muitos portugueses só descobriram a artista quando, em 2015, o britânico Banksy a selecionou para o projeto coletivo Dismaland, ao lado de Damien Hirst ou Josh Keyes. Mas ela prefere não ir por aí. "O trabalho de uma mulher quando é reconhecido por um homem, especialmente quando é um homem super importante, entra sempre mais facilmente. É por aí. Por isso não gosto muito de associar", explica.

Wasted Rita (Rita Gomes) estudou num colégio de freiras onde era única não católica e onde ouvia Limp Bizkit e Spice Girls. Seguiram-se os anos de liceu a ouvir a banda punk Black Flag.

"O meu trabalho é uma reação a coisas más. Ultimamente, acho que está bastante focado em misoginia, sexismo... Até quando estou a fazer uma exposição penso: "Mais uma pessoa branca, hetero. O que é que pode dar de novo?" E sei que posso dar algo de novo porque sou mulher, e se não fosse eu provavelmente ia ser um homem. Se fores ver, aqui [Underdogs], a última exposição de uma rapariga foi da Maria Imaginário, e antes disso foi a minha, há dois anos."

Quem entrar agora na galeria poderá estranhar ver uma tela que, em vez de ter escrito As happy as sad can be, tem, em fundo cor de laranja e letras pretas, As happy as OK can be. "Depois achei que sad não é bem o mood, é só OK. Acho que não tenho motivos para me queixar assim tanto", afirma.

Todo o espaço está dividido em diferentes secções. Começámos pelo quarto. "É suposto ser um safe place. Aqui são mais trabalhos sobre feminismo. O meu quarto sempre foi um refúgio onde eu escrevia ou desenhava coisas que "precisava de."" Um dos quadros mostra um envelope negro que logo faz recordar as Love Letters de Wasted Rita, cujas obras representam uma permanente intermitência entre o amor e o desamor. Ali lê-se: The ocean is bigger than anything I feel for you.

Depois haverá ainda um cinema, "focado em relações e pessoas importantes da minha vida pessoal", duas zonas que simulam uma rua, aqui é "tudo à volta de food obsession e depressão, não é bem depressão, é não te sentires super integrada no mundo". Outra das secções é acerca de quem é a Rita na internet. "Que é só faking, e pronto." Há uma tela que mostra uma "lista de coisas que parecem mais fixes na internet, incluindo, acima de tudo, a internet". Parece uma carta de amor. "Eu sei. Também reparei e fiquei mesmo: Yes, consegui!"

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG