"Não gosto da literatura que se quer muito pura"

Lançou há dias o livro de contos Grosso Modo. Nove textos que tratam de assuntos da atualidade, sem esquecer as relações humanas, o cinema ou o futebol.

O escritor Jacinto Lucas Pires esteve no Festival Literário Fronteira, em Castelo Branco. Onde falou sobre a sua profissão: escritor, dramaturgo, contista e músico... Uma entrevista em que explica como reage aos acontecimentos, ao mundo editorial e aos desejos dos leitores.

Vem de uma sessão pública em Vila Real para o festival de Castelo Branco. Para quem não é adepto de festivais literários é uma boa média...

Não sou uma presença habitual destes eventos. Nem tenho muitos convites pois não ando no circuito, mas se me convidarem vou.

O escritor deve afastar-se deste tipo de eventos literários?

Não tenho pruridos desse género. Às vezes faz sentido estar presente, noutras não. Por exemplo, quando tenho um livro novo é quase obrigatório. No entanto, gosto da ideia de que a literatura também possa ser um pretexto para outro género de conversas, das que têm a ver com política, de modo a poder saber-se o que os outros andam a pensar.

Os temas da atualidade devem rivalizar com os da literatura?

Sim. Como em Vila Real não houve filtro, acabámos a falar de todos os temas. Até o novo ministro da Cultura - que ainda se desconhecia na altura - foi um dos assuntos que as pessoas queriam debater.

O que espera do novo ministro?

Espero que esta seja uma oportunidade para se perceber definitivamente qual é a visão deste Governo para a Cultura. Virar a página da austeridade não é só acabar com os cortes cegos e o discurso dos números, mas que esse tempo acabe e que o dinheiro também vá para Educação e Cultura. É preciso acabar com as flores que calam as capelinhas e pensar em todos os que fazem a cultura.

Este livro também é de alguma intervenção. Porquê?

Não é uma coincidência, até porque alguns contos já tinham saído noutras publicações. Quanto aos inéditos, escrevi-os a pensar no momento da crise e fiz um exercício para saber como é que a ficção podia auscultar esta época sem voltar ao neorrealismo. Pretendia utilizar as ferramentas de leitura atuais e perceber como é que a literatura ainda pode ter um silêncio interrogativo em relação àquilo que nos rodeia.

Estes contos nascem de uma intenção do autor?

Diria antes de uma atenção ao que está à minha volta. Não estou interessado em passar uma mensagem específica com os contos, pois não entendo a literatura desse modo. A ficção não é uma forma de ilustrar uma mensagem que se queira fazer passar. Como leitor desagrada-me o simplismo de algumas narrativas, mas também não gosto da literatura que se quer pura, tão etérea e abstrata que fica fora do mundo e da vida. É uma moda de agora achar-se que tudo tem o mesmo valor. Não gosto deste novo politicamente correto.

Esta atualidade tão farta acaba com a angústia da página em branco?

Essa é realmente uma nova dificuldade para quem escreve. Como se pode ainda imaginar alguma coisa neste mundo? É como aquela frase batida, de que a realidade supera a ficção. O que é um facto.

Os leitores aceitam todos estes novos temas?

Não sei, essa é uma pergunta para os editores e livreiros. Os escritores, penso, nada têm a ver com isso.

Enquanto escreve não pensa no leitor?

Nunca. Quando estou a escrever é só isso que faço. A seguir, na promoção, logo que se vê. Até dou entrevistas!

Este livro tem uma capa muito discreta. É só devido a ser o timbre da editora?

Não, também gosto que seja assim. Aprecio a sobriedade da editora Cotovia e de como consegue resistir à lógica da imagem e do ruído visual na capa. Para mim, a única forma de trabalhar é assim. Além destes contos tem publicado teatro e romance. Que género literário prefere mesmo?

Não tenho um preferido. Depois da maratona que é o romance querer fazer uma coisa diferente é o mínimo. O teatro exige pessoas e não a solidão própria de quando se escreve um romance. Por isso é gosto de ir misturando os vários géneros.

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