Na faena de Ludovico Einaudi há sempre lugar para as experiências

O pianista e compositor italiano apresenta-se amanhã no Campo Pequeno, em Lisboa. É perante o público que o autor de Le Onde gosta de trabalhar novas ideias e de explorar outras abordagens à sua música, como diz ao DN

O pianista e compositor italiano está de regresso a Portugal para um concerto no Campo Pequeno. Há uns anos, a localização de um espetáculo só daria para controvérsias devido às características acústicas do espaço. Ao saber-se que este vai decorrer numa praça de touros, a página de Facebook de Ludovico Einaudi encheu-se de mensagens de ativistas antitourada. O músico turinês, de 61 anos, pode não ser sensível aos argumentos de que ao atuar num local como o Campo Pequeno está a contribuir, ainda que de forma indireta, para uma atividade que causa sofrimento em animais. Mas no ano passado mobilizou-se para outro tema que diz respeito a todos, o aquecimento global e o degelo do Ártico. Numa campanha organizada pela organização ambientalista Greenpeace, Einaudi desceu de um navio e, sentado ao piano numa plataforma flutuante, tocou uma peça nova, Elegy for the Arctic, tendo em pano de fundo blocos de gelo em colapso. Tão belo quanto chocante, o vídeo da performance passou a mensagem a milhões de pessoas sobre a natureza em desarmonia.

O mais recente trabalho do compositor, Elements, é inspirado nos elementos da natureza. Dois anos após a sua edição, estamos perante a sua obra-prima? "Nunca vou dizer isso da minha música. Não consigo definir um trabalho meu como obra--prima, também porque é agradável imaginar que ainda posso fazer melhor no futuro. Às vezes surpreendo-me quando oiço a minha música, "Ah, fiz isto, isto é muito bom", mas outras vezes penso o contrário. Gosto de pensar que posso melhorar e é por isso que gosto de trabalhar e de experimentar novas ideias."

Qual a fórmula de sucesso de Ludovico Einaudi? Aprendeu piano desde muito novo com a mãe, Renata, e teve como mestre Luciano Berio, um dos mais destacados compositores de música experimental do século XX. "A minha mãe fez-me compreender a alma da música, de como se pode extrair emoções da música e a relação do som com as emoções. Por outro lado, Luciano Berio deu--me a autoconsciência para trabalhar com uma ideia. Até trabalhar com ele não tinha certezas sobre as minhas capacidades. Foram ambos importantes." Mas se deu os primeiros passos na música clássica, acabou por seguir um caminho oposto ao de Berio, ao optar pelo minimalismo, pela simplicidade e pela clareza. Galgou barreiras e piscou o olho a diversos estilos musicais, quer em bandas sonoras quer em colaborações com músicos de jazz, rock ou world. É, numa palavra, pop - o que explicará o porquê de ter discos nos tops de vendas e de captar largas audiências.

Lidar com a fama e com o peso do nome é algo a que Ludovico está habituado: o pai, Giulio, fundou a prestigiada editora Einaudi e o avô Luigi foi presidente da República. "Provavelmente se tivesse feito algo no mesmo campo do meu pai teria sido mais difícil, porque quando se faz o mesmo entra-se em competição, ainda que não o queiramos. Senti a pressão, mas escolhi algo completamente diferente. A minha mãe deu-me a conhecer a música muito novo e cedo senti que a música é o meu mundo. Se calhar senti que queria fazer algo de importante na música, mas não sei se o que fiz é importante. Tenho sido bem-sucedido com o meu trabalho porque muita gente segue o que faço, posso fazer o que quero, o que adoro fazer, e viver disso. Isso para mim é que é importante."

Tendo atuado no Porto e em Lisboa no ano passado, Einaudi garante ao DN que desta vez vai tocar mais temas de discos anteriores: "Diria que 50% do concerto é diferente." O palco é o local de eleição para o italiano. "Não diria todas as noites, mas em cada dois ou três concertos surgem novas ideias e introduzo coisas novas. Gosto de fazer experiências e o concerto é o momento ideal para as fazer porque as testamos e partilhamos de imediato com o público. Às vezes são boas ideias, outras nem tanto, mas é assim a vida. Nuns casos decido voltar atrás, noutros mantenho as mudanças. É assim que gosto de manter a minha vida de performer, ativa e revigorada", explica.

Na tarde de sexta-feira os lisboetas poderão cruzar-se com ele pelas ruas, porque gosta de fazer caminhadas antes dos concertos. Mas é favor não o incomodar: "Só quero estar com as pessoas que conheço e não gosto de falar muito." O aviso está dado.

Ludovico Einaudi Elements

Hoje, às 21.30

Campo Pequeno, Lisboa

Bilhetes a partir de 22 euros

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG