Museu Nacional ganha mais 16 salas para Arte Antiga

Fechado há quase uma década, o terceiro piso reabre ao público amanhã com o Sequeira no lugar certo e uma nova maneira de mostrar os Painéis de São Vicente.

É subir as escadas alcatifadas e preparar-se para suster a respiração: no renovado piso 3 do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), os Painéis de São Vicente, tesouro nacional atribuído a Nuno Gonçalves, são a primeira obra que se vê, em fundo carmim. Antes encostados à parede, ficarão sobre um suporte ao centro da nova sala, uma de 16, encerrada há oito anos e agora remodelada. Abrem ao público amanhã, às 18.00.

A nova galeria é uma proposta de visita cronológica, uma viagem do século XV ao século XVIII, com percurso indicado e possibilidade do visitante se ir perdendo se quiser já que as divisões comunicam entre si. Pintura e escultura dialogam também, como sublinham os conservadores das respetivas áreas, Joaquim Caetano e Maria João Vilhena, em momentos separados.

O diretor, António Filipe Pimentel, salienta, para início de visita, que este é o resultado do estudo e investigação que se desenrola no museu para lá do olhar do público. Com a abertura desta galeria do piso três, e da sua nova museografia, espera chegar a mais do que especialistas, com tabelas informativas que contêm a história de cada peça. "É uma nova forma de apresentação."

Os Painéis de São Vicente, um dia esquecidos e hoje uma das obras mais importantes do MNAA, ainda não estavam colocados ontem, durante a visita para os jornalistas. Quando a galeria estiver concluída será possível "ler" esta obra de Nuno Gonçalves ao lado das suas outras obras, à guarda do museu. "Os seus santos", descreve Joaquim Caetano, referindo-se ao São Pedro, São Teotónio, Santo Franciscano e São Paulo.

Na visita à imprensa, a estrela é A Adoração dos Magos, que reaparece após dois meses de restauro. Espera-se pelo momento em que é pendurada na parede e se pode ver como Domingos Sequeira a pintou em 1828. "É quase outra pintura."

Cores vibrantes e um céu azul ainda mais iluminado, a que as conservadoras, Susana Campos e Teresa Serra e Moura, chegaram depois de retirarem o verniz. "Estava muito alterado, explicará, no final, Teresa."

A Adoração dos Magos é uma das sete obras do pintor português que estão na exposição permanente, mas é a primeira que foi alvo de exames profundas: fluorescência de ultravioletas e radiografia. "Permitiram conhecer mais sobre o método de trabalho do pintor", afirma António Filipe Pimentel.

A restauradora mostra os cartões com os desenhos prévios, que também pertencem ao acervo do MNAA, e compara-os com a radiografia que pôs a nu o desenho sobre a tela. Domingos Sequeira fez alterações.

No início do processo de conservação, dois meses de trabalho, constataram que o verniz estava muito alterado e "que havia um repinte no canto superior esquerdo".

"Tinha um rasgão com um centímetro que foi restaurado", explica Teresa Serra e Moura. O que em nada altera o diagnóstico anterior. A Adoração dos Magos estava em bom estado de conservação, "foi uma obra muito estimada". As cores tinham sido alteradas pelas passagem do tempo. "O que chega até nós é a verdade e não a mentira, que já era tão sedutora", afirma António Filipe Pimentel, tendo o quadro como cenário. Ficará na entrada de uma destas divisões, emoldurado pelos arcos da entrada.

Quase todas as 250 obras que se apresentam na galeria foram alvo de intervenção por parte da equipa de conservação e restauro. E enquanto a visita decorria, André Varela Remígio continuava a retocar uma das novidades da exposição: o Casamento Místico de Santa Catarina, as esculturas da igreja de Santa Catarina da Carnota, depositadas no MNAA pela Consulteam, atuais proprietários desta quinta em Alenquer. Estavam em tão mau estado que Maria João Vilhena não hesita em dizer que a sua incorporação no MNAA "é um salvamento patrimonial". "Chegou-nos em fragmentos", conta.

A escultura - barro cozido, estofado e policromado - impõe-se à entrada da sala do barroco, num nicho feito à medida. Os seus autores são frades franciscanos, frei Francisco de Santa Águeda e frei Jorge dos Reis. A obra, aponta a conservadora, é de 1653.

É parte de um retábulo mais vasto, com pintura, também aos cuidados do MNAA, mas "a qualidade escultórica é francamente superior", não hesita em afirmar a conservadora. "Representa a comunhão de Santa Catarina de Alexandria, padroeira do convento, ajoelhada à direita, no casamento místico com o Menino Jesus Cristo, testemunhado pela Virgem rainha e celebrado pela música dos anjos, dispostos escalonadamente numa dinâmica cenografia", diz a tabela que acompanha a obra.

"A modelação, a técnica e a teatralidade entroncam na longa tradição portuguesa da imaginária em barro, antecipando a obra dos escultores barristas da abadia de Santa Maria de Alcobaça", acrescenta o texto sobre a escultura, realçando um dos mais importantes aspetos da peça, segundo Maria João Vilhena.

Costas com costas com esta obra vai ficar o presépio que veio do convento de Santa Teresa de Jesus de Carnide, da autoria de António Ferreira, "um dos grandes presepistas portugueses", diz a conservadora. Ontem, era ainda um conjunto de 38 peças que jaziam junto à parede.

Esta é uma sala para causar impacto: a produção é de grande escala, como atestam os dois retábulos da parede e a escultura de 2,3 metros que está ao centro. Uma virgem esculpida por António Machado, que pertencia ao arquiteto Tertuliano Marques e foi adquirida pelo Estado português em 2005.

A abertura da galeria é sinónimo de festa no MNAA: amanhã, às 21.00, os solistas do Coro do Teatro Nacional de São Carlos apresentam Uma Noite no Museu no átrio do museu; na sexta-feira, às 18.00, no átrio e no terceiro piso é a vez de It Happens at the Museum ; e no sábado, às 17.30 atuam os solistas da Orquestra Sinfónica Juvenil. Nestes dias, a galeria, e apenas esta, estará aberta entre as 18.00 e as 23.00. A entrada é livre.

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