Morreu o histórico cartoonista francês Siné

Tinha 87 anos. Foi um dos nomes proeminentes do Charlie Hebdo, de onde foi afastado em 2008 depois de ser acusado de antissemitismo

O anúncio foi feito na página de Facebook do seu Siné Mensuel: o cartoonista francês Maurice Sinet, conhecido como Siné, morreu nesta quinta-feira de manhã no hospital Bichat, em Paris, depois de uma operação cirúrgica. Tinha 87 anos.

"Mas mesmo gravemente doente ainda desenhou ele mesmo a última capa da Siné Mensuel", declarou a advogada da família, Dominique Tricaud, à agência France Presse.

Parisiense, nasceu a 31 de dezembro de 1928 em Paris. Publica o seu primeiro desenho em 1952 no jornal France-Dimanche e, três anos depois, recebia o grande prémio do humor negro pela sua obra Complainte sans paroles. Em 1962, junta-se ao L'Express. Em 1974, integra a redação do Charlie Hebdo, onde trava relações de amizade com cartoonistas como Wolinski, Gébé ou Willem.

Do capitalismo às religiões, muitos foram os temas da sua pena mordaz. Em 2008, acusado de antissemitismo, foi afastado do Charlie Hebdo pelo diretor Phillipe Val. Na origem esteve a crónica em que Siné imaginou, ironizando, a conversão ao judaísmo do filho do então Presidente francês Nicholas Sarkozy, Jean Sarkozy, antes de se casar com a filha do fundador dos armazéns Darty.

Foi acusado de "incitação ao ódio racial" pela Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo, mas a justiça francesa ficou do seu lado, declarando que se tratava de uma sátira e não de uma demonstração de antissemitismo. Foi depois deste caso que dividiu os franceses que, em 2011, fundou o seu Siné Mensuel, publicação que atravessou sérios problemas de financiamento.

Entre os seus inúmeros trabalhos ao longo dos anos, Siné representou a revolução portuguesa do 25 de abril de 1974, numa das ilustrações, vê-se um homem revestido de cravos, portando uma arma.

Sinto a morte a girar e mexericar à minha volta sem parar

O cartoonista exprimia já o pressentimento da morte próxima na quarta-feira, no site da Siné Mensuel, através de um texto intitulado Ça m'énerve grave ("Isto enerva-me muito"). "Desde há algum tempo eu não penso senão no meu desaparecimento próximo, até iminente, e sinto a morte a girar e mexericar à minha volta sem parar, como um porco trufeiro."

Há alguns anos, Siné comprou a sua própria sepultura, no cemitério de Montmartre, em Paris. Segundo Le Monde, nela vê-se um cato em forma de manguito e um epitáfio onde se lê: Mourir? Plutôt crever! (expressão que dá nome ao documentário de 2010 sobre ele, de Stéphane Mercurio).

Outro dos testemunhos da sua lucidez face à morte é o texto "Mes dernières volontés" ("As minhas últimas vontades"), onde o cartoonista brinca com a reencarnação, dizendo que voltará na pele de um chimpazé, e se torna mais sério, fazendo saber que tem uma lista de músicas que gostaria que soassem quando ele fosse enterrado. Entre elas contam-se as vozes de Nina Simone, Ray Charles, Billie Holliday ou Otis Redding.

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