Milo Manara: "Estarei sempre ligado à figura feminina"

O autor de banda desenhada faz este ano a imagem da Festa do Cinema Italiano. Em conversa com o DN, Milo Manara fala da estátua que fez para Brigitte Bardot, dos atores, atrizes e futebolistas como os novos deuses do Olimpo.

"Va benne", responde Milo Manara do outro lado da linha telefónica. Stefano Savio, diretor da Festa do Cinema Italiano, agradecia-lhe o cartaz da edição deste ano, com uma das muitas mulheres de formas generosas que desenhou, e manifestava o desejo de, para o ano, fazer uma exposição grande e trazer o ilustrador italiano a Lisboa. Va benne, cantava Manara.

Stefano fazia de tradutor nesta conversa a pretexto de um cartaz. Milo falava bem-disposto e não acabaria a conversa sem falar da "magia extraordinária de Lisboa" e de como se "está muito bem em Portugal". Stefano concorda. Lisboeta há 15 anos, há dez que mostra o que de melhor se faz no cinema italiano aos portugueses.

Neste ano, Milo Manara foi desafiado a associar-se à Festa do Cinema Italiano. Resgatou um dos desenhos que fez para La Città delle Donne, de Fellini. Inspirou-se numa atriz "não muito conhecida, uma rapariga enorme que voava no céu". Não é um desenho feito de propósito para a festa, é um dos que decora um navio de cruzeiro dedicado ao realizador italiano com quem Manara mergulhou no universo cinematográfico.

Milo Manara também voa conversa fora, como a ragazza de formas voluptuosas que agora anda pelas paredes a promover o festival. Uma das muitas mulheres bem torneadas que ligam a obra do artista, agora com 71 anos, à banda desenhada erótica. "Desenho mulheres, homens, casas, carros, janelas mas aquilo que sobressai mais, pelas fantasias dos leitores, são as mulheres. Não fiz nada para ficar com essa etiqueta mas não acredito que seja conhecido como o desenhador de janelas. Estarei sempre ligado à figura feminina", diz, bem-disposto.

Desenha sempre mulheres jovens. E claro que não é por acaso. "Talvez seja uma maneira de ficar ligado ao mundo jovem. Como dizia o Hugo Pratt, eu não tenho espelhos de madeira em casa e vejo perfeitamente os anos que passaram por mim. Mas é a alma da humanidade. Diria que a figura feminina é representada como um arquétipo da vida em geral, da beleza da vida e não apenas da beleza. Em toda a história da arte, a figura feminina, em especial a figura nua feminina, é um retrato sem tempo, sem uma referência da roupa que nos coloca numa determinada época. É uma forma de as ligar à eternidade", diz lembrando Rubens e Botticelli entre os artistas que trabalharam o nu feminino ao longo dos séculos.

Escolhido pela atriz francesa Brigitte Bardot para conceber a estátua em sua homenagem que vai ser colocada em Saint Tropez junto ao Museu do Cinema, conta que se inspirou em O Nascimento de Vénus, de Botticelli, e no filme E Deus Criou a Mulher. É um dos trabalhos que tem em mãos (a par do segundo volume de Caravaggio, e em que assina desenhos e argumento). "Ela quis que fosse eu a desenhar este monumento. Eu fiz algumas propostas e ela aceitou uma e estamos a acabá-la."

O mundo do cinema, onde sempre volta esta conversa, é uma das suas inspirações assumidas. "Os atores e as atrizes representam no nosso mundo aquilo que os deuses simbolizavam no Olimpo grego, ou seja, cada uma destas figuras representam características que são comuns ao imaginário humano. Neste Olimpo também cabem jogadores de futebol e os cantores", diz Milo Manara. Para o ano, talvez se inspire, também, na "magia"de Lisboa...

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