Michael Palin: "Não gosto de ser o Monty Python mais simpático"

Michael Palin é um dos Monty Python que em 1969 surpreenderam o mundo com um humor nunca visto. Veio a Portugal participar no Festival Literário de Viseu, Tinto no Branco, com Ricardo Araújo Pereira.

A conversa com um dos membros dos Monty Python começa às nove da manhã. Michael Palin gosta de se levantar cedo e, antes de viajar para Portugal, onde participa neste fim de semana no Tinto no Branco - Festival Literário de Viseu, numa espécie de entrevista stand-up com Ricardo Araújo Pereira, fez um balanço da sua carreira com os Python e da que se seguiu como autor de livros de viagem e de ficção. Diz logo que está satisfeito por conhecer uma região de Portugal que não visitou: "Sou fascinado por lugares novos e parece que é bonito. Estou entusiasmado." Ao saber que os seus romances não estão traduzidos, suspira um "oh my god". A dado momento pede desculpa por não encontrar as melhores palavras para descrever os Monty Python como mereceriam.

Já deu alguma entrevista em que não lhe fizessem perguntas sobre os Monty Python?

Sim, e não foram assim tão poucas porque em certas partes do mundo os Python não são muito conhecidos. É o caso da Índia ou da China, onde me conhecem mais pelas viagens. Em Inglaterra, os entendidos em Python estão velhos.

Entre os livros, os de viagens são grandes sucessos. Porque é o viajante que outros gostariam de ser?

É muito complicado apontar o motivo porque gostam dos meus livros e programas de TV sobre viagens. Dizem-me que é como se estivessem a viajar ao meu lado! Deve ser porque gosto de conhecer pessoas e os pequenos pormenores das suas vidas: o que comem, as escolas dos filhos, se gostam de futebol... Não os questiono sobre as grandes questões da humanidade, mas abro-lhes a janela para o mundo. Como há quem tenha medo de viajar, comigo tudo parece mais fácil, basta ver-me ou ler-me no sofá.

Não viveu situações perigosas?

Sim, e algumas bastante difíceis, mas como sou um viajante muito otimista, nunca perco a visão positiva do mundo. Adoeci em vários lugares, fiz viagens muito pouco seguras, como a de aterrar numa avioneta no Polo Norte sobre um gelo muito fino e a partir-se - sobrevivi!

Protagonizou na TV programas de viagens. De qual mais gostou?

Essa é uma pergunta muito difícil. Se tivesse mesmo de escolher, seria a minha jornada nos Himalaias, onde vivi uma fascinante combinação de pessoas e culturas diferentes e espantei-me com as paisagens. Ninguém percorreu tanto os Himalaias em todas as direções e durante vários meses como eu.

Gosta de ser conhecido como o viajante mais popular?

Não sei se ainda é assim, porque agora vive-se num mundo muito competitivo e há muitos artistas, escritores e chefs a viajar pelo mundo inteiro. Fui, sim, o primeiro a fazer programas não especializados sobre viagens, em que era um viajante normal que falava com as pessoas que se atravessavam à minha frente. Como os livros venderam muito e os programas eram muito vistos, fiquei muito popular. Quando somos os primeiros a fazer coisas, temos o elemento surpresa.

Prefere ser conhecido como o Python mais simpático?

Essa é uma verdadeira mancha na minha reputação, de que nunca consegui fugir. Os Python nunca foram conhecidos por serem simpáticos e eu evitava o confronto. Creio que este modo de ser deve-se ao meu pai, que estava sempre a perder a compostura. Contudo, não gosto de ser o Monty Python mais simpático, talvez preferisse ser o menos desagradável.

Revelou que o Python Terry Jones estava a "ir-se embora"...

É verdade que não está muito bem de saúde e já o tinha notado em 2014, nos espetáculos em Londres. Subiu ao palco e vi que estava com problemas em recordar-se das deixas. Um ano depois ficou pior, mas agora nem consegue comunicar e ficamos sem perceber se nos compreende.

Se tivesse de escolher qual dos Python é o melhor amigo, quem seria? John Cleese?

Ainda bem que não preciso de fazer essa escolha - só um ser divino seria capaz. Era muito próximo de Terry Jones, conhecia bem o Terry Gillian, John é boa pessoa. É preciso ver que somos os únicos no mundo que fomos Python, ou seja, há algo especial que nos reúne. Portanto, gosto de todos.

O seu último romance, A Verdade, é o livro que sempre quis escrever ou ainda falta uma obra-prima?

Estarei sempre atrás da obra-prima, mesmo que o tempo se esteja a esgotar. Proust começou cedo... Nesse romance queria contar uma história que questionasse o idealismo e falasse dos bons e dos maus.

Questiona o progresso por causa do que observou nas suas viagens?

Sim, parte da realidade. A melhor experiência das viagens é o convívio com comunidades não industrializadas, pessoas que têm pouco dinheiro, vivem em pequenas localidades e cuidam umas das outras. São mais inventivas e fazem muito com pouco. Quando a indústria chega, o indivíduo é esmagado.

Situa as memórias Viajar para Trabalhar (Travelling to Work) quando abandona os Monty Python e ganha direito à sua pessoa. Ser um globetrotter era a única personagem a encarnar?

Apesar de viver na mesma casa há 50 anos e ser casado com a mesma mulher, sempre gostei de conhecer o mundo. Sei que posso representar, escrever até certo ponto, mas quero ultrapassar os meus limites. Viajar era um dos desafios e quando apareceu a oportunidade aproveitei. Vi que o mundo era diferente do que pensava e que cada pessoa tem um ponto de vista próprio.

Percebe-se nos seus diários que a família real inglesa lhe desagrada. Não é a única coisa sagrada no seu país após o brexit?

Uma coisa de cada vez. Gosto da família real e admiro-os, mas os diários cobrem um período muito longo e apanham o tempo em que a família real estava a atravessar uma fase má devido à morte da princesa Diana. Quanto ao brexit, foi grande a desilusão. Sou contra a Inglaterra deixar a União Europeia, até porque como viajante detesto que uma pequena Inglaterra queira proibir as pessoas de lá entrar.

Participou no filme A Morte de Estaline. O género comédia negra é o que melhor define um ditador?

É um filme que pretende satirizar os que estão no poder e como ficaram perdidos os que estavam à sua volta quando morre. Há muito humor, porque o poder ridiculariza.

É um bom género para fazer um filme sobre Trump?

Acho que os realizadores fazem fila para fazer um filme sobre Trump. Talvez a melhor forma de o retratar seja a sátira, no entanto deve ser difícil porque ele criou uma personagem tão cómica que é difícil recriar.

Doou mais de 50 blocos de apontamentos à Biblioteca Britânica com as ideias originais dos Monty Python. Esperava que o destino deles fosse tão institucional?

Tinha muitos cadernos e já estavam a ganhar pó. Nem sabia onde encontrar o que procurava. Os da Biblioteca são peritos a tratar de arquivos, capazes de catalogar tudo e dar sentido ao material. Achei que permitiriam aos interessados saber como os Python começaram e trabalhavam. Há muitas notas, desenhos, pistas, e percebe-se como montávamos os sketches juntos. Ainda se irão divertir com os apontamentos, estou certo.

Não receia que descubram os vossos truques criativos?

Não, muitas vezes tudo aquilo tem tão pouco sentido que as pessoas vão é ficar baralhadas. O mais interessante será encontrarem certas indicações do que pensávamos e do que queríamos fazer, como as ideias iniciais surgiam ou escolhíamos uma em vez de outra.

Participou nos sketches mais famosos dos Monty Python. Qual elege como o mais extraordinário?

Tenho dois de que gosto muito. Um é o Papagaio Morto, com John, que foi ao encontro do imaginário dos espectadores. Sempre o achei engraçado e gosto de o representar no palco porque é fabuloso. Mostra como pode haver duas formas de lidar com uma situação, com uma das personagens a queixar-se e o outra a fazer que não se passa nada. É o grande clássico. Também há um muito pequeno, The Fish Slapping Dance, com o John, em que fazemos um estranho ritual sobre os ingleses. É o melhor teste para saber quem tem humor. Se não se rir com este, nada mais o fará rir.

O humor era mais livre naquela época e os espectadores menos politicamente corretos?

É curioso que estávamos numa época muito perigosa no mundo: a luta pelos direitos civis na América, a guerra no Vietname, a Guerra Fria... Esse era o cenário de fundo para a nossa escrita e muita gente que no estrangeiro via os Python sofria com regimes repressivos. Éramos muito populares na Jugoslávia nos últimos dias de Tito porque as pessoas viam em nós o equivalente à confusão que se passava no país. Verem os Python era uma forma de protesto. Agora existem assuntos importantes, mas há muito de politicamente correto a decidir as abordagens. Éramos mais livres e ninguém nos criticava.

Os Monty Python só poderiam ser aquilo que conhecemos ou gostaria que tivessem sido diferentes?

Éramos o que éramos. O mais extraordinário foi o facto de seis pessoas se juntarem em 1969, adotarem aquele nome e tentarem criar algo que ainda não se esqueceu. Nem sei como este tipo de humor resistiu tanto. Agrada-nos ter feito algo duradouro, que nos fará ser lembrados e inspiradores.

O vosso regresso ao palco da O2 Arena criou muitas expectativas. Imaginam-se num regresso em hologramas ou digitalizados?

Não sei o que acontecerá. Durante muito tempo fomos muito protetores dos Python e quisemos manter tudo como era na memória das pessoas: 45 episódios na TV e dois filmes. Quanto ao futuro, não sei o que será. Podem fazer robôs como nós, mas os Python serão sempre parte do futuro e não do passado.

Houve alguma coisa que não tenha revelado nos seus diários e queira contar ao mundo agora?

Confesso que tive de editar os diários e retirar muito do que lá estava para tornar o livro publicável. Mantive os momentos maus e os embaraços, portanto, não deixei o importante de fora. Também confesso que sou um escritor compulsivo e muito conversador, tanto que a minha mulher está sempre a calar-me. Posso confessar que há pensamentos que me assaltam de noite, mas não os vou revelar.

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