Meryl Streep elevou a noite avassaladora de "La La Land"

Meryl Streep e Isabelle Huppert foram as figuras dos Golden Globes. Na noite de "La La Land", as atrizes quebraram o gelo de uma cerimónia trapalhona e com discursos previsíveis.

Foi contundente a bicada de Meryl Streep a Donald Trump. No seu discurso dos Golden Globes, quando aceitou o prémio de carreira Cecil B. DeMille, Meryl atacou diretamente o próximo presidente dos EUA, sobretudo quando o acusou de imitar um repórter deficiente. A atriz lembrou que a génese de Hollywood são sobretudo estrangeiros e lembrou que caso se concretize a ideia de Trump de expulsar quem não é americano, vamo-nos limitar a ter apenas futebol americano e artes marciais. Um apelo veemente num discurso sentido, o melhor que se viu na cerimónia da madrugada de domingo.

O impacto foi tão grande que o próprio presidente eleito reagiu, chamando Streep de "pessoa liberal de cinema". O ato de resistência de Streep não é uma novidade e, recentemente, no Festival de Cinema de Tóquio, apoiou publicamente Hillary Clinton. Ao longo dos anos, esteve também sempre de voz ativa em causas sociais, sendo uma das últimas a questão da igualdade de salários em Hollywood para atrizes e atores.

Ainda assim, não foi só a grande atriz homenageada a fazer alusões a Trump. O discurso inaugural de Jimmy Fallon gozou com a alergia do milionário à palavra estrangeiro. Pena foi que o cicerone da noite não tivesse mais em foco (presumivelmente devido aos atrasos dos discursos que terão retirado tempo de antena aos seus números de humor). Quanto à sua entrada, um vídeo elaborado que só fez sentido para quem já viu La La Land - Melodia de Amor, de Damien Chazelle, o melhor elogio que se pode fazer é que representou um certo espírito da cerimónia: irreverência e uma coragem direta de brincar com os protagonistas. O gozo a Ryan Gosling e aos seus beicinhos fica para a história, mas, por outro lado, não deixa de ser pouco ético tanto ênfase a um filme que mesmo favorito acabou por ter um tratamento privilegiado.

La La Land, como seria de esperar, ganhou à grande - sete globos, algo inédito na história destes galardões. Cada vez mais, nesta temporada de prémios, este musical contemporâneo, parece já ser o vencedor antecipado das principais categorias. Seja com for, Tina Fey teve cameo brilhante quando brincou com o visual de Questlove, o DJ de serviço.

Nesta altura, Moonlight, drama racial de Barry Jenkins, é a única sombra à glória de La La Land, não só por ter vencido ontem a categoria de melhor filme na categoria de drama mas essencialmente por estar a ganhar um impulso de prestígio e popularidade muito forte. De todos os filmes nomeados, foi o último a ser adquirido para Portugal, neste caso pela NOS Audiovisuais e estreia-se no próximo dia 2 de fevereiro.

Mas dê por onde der, a cerimónia foi marcada pelo caso Ela, o filme francês de Paul Verhoeven, que venceu na categoria de melhor filme estrangeiro e que provocou a maior surpresa da madrugada: a vitória de Isabelle Huppert nas atrizes dramáticas, derrotando a favorita Amy Adams em Arrival - O Primeiro Encontro, de Dennis Villeneuve. Uma surpresa tanto maior quando a própria nem está nomeada aos prémios SAG, a guilda dos atores.

Aliás, a francesa, conhecida pela sua imponente frieza, fez o discurso mais emocionado dos Globos de Ouro e pareceu verdadeiramente surpreendida. Em Ela, Huppert interpreta uma senhora burguesa que reage a uma violação da forma mais inesperada. Neste imenso filme amoral, Huppert é de uma integridade inexplicável. Um prémio justíssimo que provocou uma enorme reação na plateia.

Huppert, quando subiu ao palco, espantada, perguntava como era possível Ela ser um filme francês, realizado por um holandês e estar a vencer os Golden Globes, neste caso uma dobradinha improvável: melhor filme estrangeiro e melhor atriz. Não poderá estar na corrida ao Óscar de Filme Estrangeiro visto ter ficado de fora da última short-list. Resta a forte hipótese Huppert...

À parte disto, os Golden Globes não foram uma festa com grandes momentos televisivos. O tributo a Carrie Fisher e a Debbie Reynolds não foi memorável e a realização parecia mais interessada em fazer "apanhados" de expressões das estrelas (um Denzel Washington com olhar alheado deu brado na net, um pouco como o que se passou o ano passado com Leonardo DiCaprio e Lady Gaga). Os muito intervalos fizeram que a sala do hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, estivesse excessivamente barulhenta - as estrelas de cinema são barulhentas. E em televisão, o ruído de celebridades a chegarem atrasadas à mesa não é coisa agradável de se ver.

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