Meryl Streep desafina e encanta

"Uma Diva fora do Tom", filme sobre Florence Foster Jenkins, chega em junho.

Depois do rock, Meryl Streep vira-se para a ópera em Uma Diva fora do Tom, de Stephen Frears, uma comédia musical sobre uma socialite americana do século passado que insistia no capricho de se tornar uma cantora de ópera, tendo ficado conhecida pela sua incapacidade de cantar e pelos gritos estridentes dos seus desafinos. Uma história verdadeira que será uma das apostas fortes da distribuidora NOS Audiovisuais para a próxima temporada e que poderá marcar o regresso de Frears ao Festival de Cannes, em maio.

Depois de um teaser trailer que provocou muitas reações e enorme expectativa na internet, foi agora mostrado o trailer completo. Antevê-se um divertimento rigoroso e sério, à boa maneira das melhores comédias de Frears, como Filomena (2013) ou Mrs. Henderson (2005), ambos baseados em histórias verdadeiras. De forma inteligente, ficamos com água na boca para ouvir a voz da infame cantora e apenas suavemente se descortina um grito esganiçado. Ficamos também a perceber que o filme segue muito a questão da relação pessoal entre Florence e o companheiro, St. Clair Bayfield (um envelhecido Hugh Grant), que se torna igualmente uma espécie de apoio e de manager. Por estas imagens deduz-se que a linha essencial da história segue a utopia de Florence, de uma pureza genuína.

Esta herdeira nova-iorquina, devido à sua falta de dotes vocais, acabou por se tornar famosa, chegando ao ponto de os seus concertos serem frequentados com pessoas que queriam ouvir de perto tamanha "aberração", não tendo sido por acaso que ganhou a alcunha de "rainha do grito". Tinha-se muito em conta, julgando cantar ao nível das melhores divas. Em 1944 insistiu em tocar no conceituado Carnegie Hall, em Nova Iorque. Como ouvimos Streep dizer: "A música é a minha vida."

Prognósticos à parte, este novo filme de Stephen Frears tem os requisitos para vir a ser um sucesso junto ao grande público, mesmo apesar de algum possível academismo na estrutura. Será certamente mais uma grande prova da versatilidade de Meryl Streep, desta vez com ordens para gritar e cantar mal, logo a seguir a ter cantado e tocado de forma admirável em Ricki e os Flash. De lembrar que Streep tinha sido recentemente nomeada ao Óscar em Caminhos da Floresta (2014), onde cantava segundo os ditames do musical da Broadway, neste caso de James Lapine. Do que se vê no trailer não é descabido pensar em prémios para esta sua adorável cantora, tanto mais que os franceses já se inspiraram na personagem em Marguerite, de Xavier Giannoli, estreado entre nós no ano passado e vencedor do César de Melhor Atriz para Catherine Frot.

A maior atriz do cinema americano volta ao cinema britânico, logo a seguir a ter feito parte do elenco coral de As Sufragistas, de Sarah Gravon. Streep continua a saber escolher os melhores papéis, nunca dizendo não às ofertas de comédia.

Cannes e outras hipóteses

E se Uma Diva fora do Tom é forte hipótese para Cannes, as especulações em torno da seleção do festival estão ao rubro. De Portugal a hipótese mais forte é sem dúvida O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, que em 2009 levou até ao Um Certo Olhar, secção oficial paralela, Morrer como Um Homem. Rodrigues é neste momento, a par de Pedro Costa e Miguel Gomes, o nome mais internacional do nosso cinema. Se houver surpresa, 2016 pode ser também o ano do regresso a Cannes de Marco Martins com São Jorge, que apresentou Alice há 11 anos na Quinzena dos Realizadores. Desta vez, o tema são os meandros do pugilismo lisboeta. Mas há um produtor português, Paulo Branco, que tem trunfo forte: Os Belos Dias de Aranjuez, de Wim Wenders, a partir da peça de teatro de Peter Handke. O elenco tem Reda Kateb como protagonista e uma pequena participação de Nick Cave. Cheira mesmo a Cannes.

Luís Galvão Teles também pode sonhar com a seleção oficial. Ele é um dos produtores de O Grande Circo Místico, uma grande produção brasileira com presença portuguesa. Este filme de Cacá Diegues é falado pela imprensa brasileira para estar em Cannes, embora Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, pareça ser a aposta mais segura do cinema brasileiro. O cineasta de O Som ao Redor é o ponta-de-lança do novo cinema pernambucano e faria sentido a competição de Cannes apostar nele. Sónia Braga é a atriz principal.

De Hollywood para Cannes, tudo pode acontecer, embora dois filmes pareçam óbvios: Money Monster, de Jodie Foster, com George Clooney e Julia Roberts, e La La Land, de Damien Chazelle. Além do mais, Jodie Foster é uma amiga de Cannes, tendo sido convidada já para presidir o júri (depois, acabou por não poder estar presente). Quanto ao filme do realizador de Whiplash, é a forma de Thierry Frémaux, o diretor artístico do festival, encontrar mais um menino de ouro do novo cinema americano... O festival de Cannes decorre entre 11 e 22 de maio e terá como presidente do júri o realizador australiano George Miller.

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