Memórias de Fellini e Scola na Festa do Cinema Italiano

A apresentação de uma cópia restaurada de 8 1/2, de Fellini, é um dos pontos altos da iniciativa que conta com nove antestreias

Com a passagem dos anos, a Festa do Cinema Italiano adotou a designação de 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, evocando o clássico realizado por Federico Fellini, em 1963. Este ano, pode dizer-se que o simbolismo está duplamente reforçado: a apresentação de uma cópia restaurada de 8 1/2 (também por vezes designado como Fellini Oito e Meio) constitui um dos pontos altos da 9.ª edição deste festival organizado pela Associação Il Sorpasso. O filme será apresentado por Gianfranco Angelucci, escritor, jornalista e professor universitário, colaborador do cineasta (no guião de Entrevista, 1987) e presidente da Fundação Federico Fellini, entre 1997 e 2000.

O evento decorre em Lisboa, de 30 deste mês a 7 de abril, com sessões repartidas pelos cinemas São Jorge e UCI - El Corte Inglés (pela primeira vez envolvido na iniciativa), e ainda pela Cinemateca. Serão apresentados 39 filmes, incluindo seis numa secção competitiva, havendo um total de nove títulos em antestreia nacional.

Ao longo dos meses de março e abril, a Festa prolongar-se-á pelas cidades de Cascais (15 a 17 abril), Porto (18 a 20 abril), Aveiro (26 a 28 abril), Elvas (29 e 30 abril), Loulé (12 a 14 maio) e Caldas da Rainha (13 a 15 maio), com sessões ainda no Funchal, Évora, Guimarães, Almada, Setúbal, Braga e Beja. Consolidando uma estratégia de crescimento no espaço lusófono, a programação alarga-se desta vez a Luanda (Angola), Maputo (Moçambique) e sete cidades do Brasil.

Na secção de memórias, será também exibido Marcello Mastroianni, Lembro-me sim, Eu Lembro-me (1997), documentário em que o ator evoca a sua carreira, numa entrevista registada durante a rodagem de Viagem ao Princípio do Mundo (1997), de Manoel de Oliveira. Além da passagem de uma cópia restaurada de A Vida É Bela (1997), de Roberto Begnini, haverá ainda um ciclo dedicado a Ettore Scola, recentemente falecido, integrando Ridendo e Schrezando - Ritratti de um Registo All'Italiana (2015), realizado pelas suas filhas, Paola e Silvia Scola.

Antestreias em destaque

Em qualquer caso, alguns dos principais destaques estão nas antestreias, a começar por O Conto dos Contos, de Matteo Garrone, e Quo Vado?, de Gennaro Nunziante (escolhidos para as sessões de abertura e encerramento, respetivamente). O primeiro, apresentado em 2015 no Festival de Cannes, propõe uma adaptação feérica dos contos fantásticos de Giambattista Basile (1566-1632), com um elenco internacional em que figuram Salma Hayek, Vincent Cassel e Toby Jones (convidado da sessão de abertura); o segundo, uma comédia sobre a crise do mercado de trabalho, é já o mais rentável filme de sempre na história da produção italiana, tendo consagrado a figura do seu argumentista e ator principal Checco Zalone (que estará na sessão de encerramento).

A programação inclui alguns dos títulos italianos que, em tempos recentes, têm adquirido maior visibilidade internacional. É o caso de Mergulho Profundo, de Luca Guadagnino, autor de Eu Sou o Amor (2009) - desta vez, com um elenco que inclui Tilda Swinton, Ralph Fiennes e Dakota Johnson, a sua visão crítica e poética visa os bastidores do mundo do espetáculo, em particular as relações entre uma estrela do rock e um cineasta. Outro destaque será Suburra, de Stefano Sollima, retomando as tradições do thriller urbano para dar conta da luta violenta de um gangster que tenta controlar a reconversão de um bairro de Roma. Sendo o realizador filho de um dos lendários criadores do western-spaghetti, Sergio Sollima (1921-2015), pode dizer-se que, também aqui, encontramos o peso das memórias cinéfilas.

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