Lucretia Martel, Herói Indie contra a narrativa audiovisual instalada

Lucretia Martel, a cineasta de "O Pântano" e "A Rapariga Santa", regressa com "Zama". No IndieLisboa foi galardoada com o corvo de Herói Indie. O DN falou com ela.

Uma cineasta argentina que sobreviveu ao hype da corrente do "novo cinema argentino" do começo do século. Uma cineasta que filma quando lhe apetece e continua a ser uma estrela no circuito dos festivais, enchendo salas onde dá masterclasses, como aconteceu esta semana na Culturgest, quando recebeu o prémio Herói Indie do diretor do IndieLisboa, Miguel Valverde. Mas Lucrecia Martel não quer ser heroína nem famosa.

Neste encontro com o público (muito apaixonado...) português estava com um humor traquinas e sempre incisiva. Falou de Zama, a sua nova obra que ontem se estreou em Portugal, mas também de um improvável assédio da Marvel Studios e da Netflix. Para ela, é importante desconstruir esse papão que é a "narrativa audiovisual": "essa coisa de se perceber ou entender os filmes é algo que não faz muito sentido. Quando bebemos uma margarita não paramos e ficamos a olhar para ela a tentar perceber o que é aquela margarita...", afirmou.

Ao DN conta que faz estas masterclasses e presenças em festivais por militância, quase como dever, mas que o que lhe apetecia era estar sempre em casa, sossegadinha e com os amigos: "Ainda agora fui convidada para fazer uma residência artística num lugar incrível e tive de recusar. Tenho de estar com a minha família em casa, é importante ouvir os meus amigos e a minha família. É isso que me permite ter inspiração para escrever."

Zama, adaptado do livro de 1956 de Antonio Di Benedetto, foi concluído o ano passado depois de uma paragem grande - A Mulher sem Cabeça foi estreado em 2008. Lucretia Martel diz que é importante ter uma vida, não ter de estar sempre a criar e que já há filmes a mais. Nesse aspeto, não deixa de ser curioso que a sua estreia em Portugal se dê numa semana com um excesso de estreias. A inquietação da cineasta também arrasa os grandes festivais, como Cannes ou Berlim. Conforme disse na masterclass, tudo ali é feito em função dos patrocínios. "São mais importantes os festivais como o Indie", confidencia-nos ao mesmo tempo que confirma que Zama não passou em competição em Veneza por decisão do festival: "disseram-me que era para proteger o filme...", diz com um sorriso delicioso.

Zama, por ser filme de época, por ter um protagonista masculino, está a causar estranheza entre os seus acólitos, mas para Martel nada muda: "É impressionante como há uma parte das pessoas que quer sempre o mesmo mas a minha forma de fazer o meu cinema não mudou. O que meu método tem é a convicção de que a certeza não serve. Não sou contra as certezas mas para o meu cinema não serve, só isso. Creio que me serve mais duvidar ou estar na zona da ambiguidade, enfim, levar a cabo o ambíguo." E o que mais de estimulante sai de Zama é rugosidade da tentativa e erro.

Obviamente, logo a seguir à vitória do seu diretor de fotografia português, Rui Poças, nos prémios Platino, é imperativo falar da imagem, mas a cineasta prefere antes falar da boa disposição do artista português: "Ele tem muito humor. E que vergonha! Esqueci-me de lhe enviar uma mensagem de parabéns." Curiosamente ou não, na masterclass da Culturgest, falou mais do poder do som do que da imagem. Faz sentido: Zama está do lado da vibração sensorial, quase como um mecanismo de hipnose para o espectador. Mas Lucrecia Martel não quer ser professora e garante-nos que os seus filmes vão continuar a debater sempre o mistério da existência humana: "Esse é um mistério para o qual não há resolução! Nem os filósofos nem a religião conseguiram resolver este mistério. A igreja tenta combater esse mistério, tenta que tudo fique um pouco mais claro, mas é impossível... A nossa existência é tão absurda." Zama é muitas vezes absurdo porque a colonização também foi absurda...

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