Lisboa Mistura, liderada por mulheres, estaciona junto ao Tejo

Sons de todo o mundo ouvem-se a partir de hoje na Ribeira das Naus, coração da capital. As músicas estão em maioria na programação. O diretor, Carlos Martins, explica porquê

Este ano o Lisboa Mistura deixa o Intendente e muda-se para a Ribeira das Naus. A mudança tornou a programação mais feminina, admite Carlos Martins, diretor deste encontro musical a que não gosta de chamar festival. "A linha programática levou-nos a uma programação muito mais feminina", reconhece. Salta à vista quando se lê o cartaz do Lisboa Mistura, este festival que não é festival, que começa hoje na Ribeira das Naus: os cabeças de cartaz são todos mulheres.

"Não foi por acaso", explica o diretor, o músico Carlos Martins. O Lisboa Mistura apresenta-se junto ao Tejo e a água, elemento feminino, foi ela que deu o mote à programação. "A ideia de trazer para o Lisboa Mistura gentes da Índia, da Turquia, África é a ideia inicial do mistura. Mostrar novas formas que nos podem inspirar a nós próprios, abrirmo-nos a outras culturas, termos, no fundo, uma capacidade maior de nos ligarmos aos outros".

Pelo palco instalado na Ribeira das Naus, passa hoje o coletivo belgo-colombiano La Chiva Gantiva, fazendo a ponte com o pulsar latino que se sente pela cidade este ano. "Como entidade apoiada pela cidade de Lisboa, achámos que deveríamos dar a nossa contribuição para o reforço da ideia de Lisboa Capital Ibero-Americana", explica Carlos Martins a propósito da inclusão deste nome no programa.

O coletivo nasceu na Bélgica, quando três emigrantes colombianos se juntaram em torno de instrumentos de percussão. "Foi enquadrar esse lado sul-americano na festa e neste lado mistura", resume Carlos Martins.

Amanhã a programação vai até Marrocos. Oum! é a convidada principal. Carlos Martins apresenta-a: "Uma ativista no plano socioeconómico das comunidades marroquinas ligadas ao trabalho manual". A música marroquina junta-se ao jazz e outros ritmos africanos.

O programador chama também a atenção para a música da turca Gaye Su Akyol. "Uma mulher interventiva na Anatólia e que aproveita ainda o movimento rock da Anatólia dos anos 60 e 70, e cuja música trabalha também no plano da intervenção estética".

O terceiro projeto que Carlos Martins destaca nasceu em Lisboa, a partir do trabalho da espanhola Mili Vizcaíno, agora a viver em Lisboa. Elogia-lhe a estética. "Ligada a uma certa espiritualidade que aprendeu e trouxe da Índia. Essa ideia juntou músicos que vêm de várias partes, todos lisboetas", completa.

Há, depois, a menina dos olhos do Lisboa Mistura. "O nosso must, já com 10 anos de trabalho", como o apresenta Carlos Martins, referindo-se à OPA. Tem nome ligado à economia, mas nada a ver com números. Fala da Oficina Portátil de Arte. "Traz sempre vários jovens, homens e mulheres, da periferia para o centro, uma coisa importantíssima, onde se pode apresentar, nas mesmas condições que qualquer grande artista", explica Carlos Martins. O resultado de várias residências dirigidas por Francisco Rebelo, dos Orelha Negra, é o que se pode ver já hoje.

A mudança do Lisboa Mistura, parceria da Sons da Lusofonia e da EGEAC Empresa de Gestão de Equipamentos e Atividades Culturais, foi decidida há dois meses, segundo Carlos Martins. "Um sítio que achamos que tem muito a ver com o Lisboa Mistura", afirma, em declarações ao DN.

Concretiza: "O Lisboa Mistura sempre foi um ponto de cruzamento de intercâmbios e partilhas, diálogo e abertura, o que é tudo dado pelo rio. O Tejo, a praça central, sempre foi a estação central de partida das viagens. Muito antes dos Descobrimentos, porque os Descobrimentos nem sempre foram um acontecimento feliz", diz, indo atrás na História da cidade. "O mesmo não se pode dizer de alguma felicidade que reinou desde o tempo dos fenícios e romanos ao encontrarem Lisboa ou descobrirem Lisboa", observa. "Queríamos voltar a relembrar que o DNA da cidade é muito anterior aos Descobrimentos". É mais vasto do que "a discussão, radical, sobre colonialismo e imperialismo que domina as conversas sobre interculturalidade".

O Lisboa Mistura situa-se no meio, diz o diretor. "O nosso trabalho no Mistura é discutir estas questões e como se podem valorizar as pessoas que estão no meio destes radicalismos, que fazem música, poesia, simplesmente respiram, tratam-se cordialmente e compreendem que há uma série de coisas que os faz sentirem-se partes de uma comunidade maior".

A música começar a soar a partir das 19.00 e a entrada é livre.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG