Leia um inédito de Agustina Bessa-Luís

A escritora teve um programa radiofónico entre 1978 e 1979, para o qual escrevia crónicas especiais. O programa acabou de repente e um delas nunca foi conhecida.

Agustina Bessa-Luís herdou de uma tia - a Sibila de um dos seus romances - o gosto de conversar com as pessoas na rua. Quando foi convidada para fazer um programa radiofónico, utilizou em muito um registo que fugia ao do romance mas sem perder as características da sua prosa eficiente, polémica e crítica.

No livro 'Crónica da Manhã' estão reunidos 23 desses textos, um dos quais, 'Ensinamentos ambíguos e histórias pícaras' nunca foi emitido e mantém-se inédito até hoje. Os restantes 22 também são inéditos, só que em livro. Segundo a filha, Mónica Baldaque a importância destes textos exigiam a sua reunião e edição porque, além do seu ineditismo, "revela uma faceta da Agustina que era muito própria, a do seu gosto pela conversa com a pessoa da rua sobre temas atuais, bem como toda a sua relação com essas pessoas comuns. Isso é menos conhecido e este livro é uma forma de revelar essa faceta."

À pergunta sobre outros inéditos que existem da escritora, esclarece que "ainda há alguns inéditos". Quanto à sua publicação, explica: "Existem uns que para já não serão publicados, mas há outros que estão planeados para o próximo ano. É o caso de uma peça de teatro inédita sobre a Luísa Todi e de vários outros textos acabados, que por razões várias não foram publicados à época. Que pelo seu conteúdo têm todo o sentido em ser publicados, como se verifica com alguns outros textos inéditos que estão dentro do espírito destas crónicas e outros ainda em estilo diferente".

Leia um excerto de Ensinamentos ambíguos e histórias pícaras:

"Quem não tem uma boa nostalgia provinciana feita de ensinamentos ambíguos e pequenas histórias pícaras, não tem pais, nem estrela que o informe.

Quando eu era criança passei muito tempo na aldeia, por temporadas que as vezes me pareciam uma vida. Aprendi que não há nada que seja hostil, entre o que é importante. Há umas coisas mais inseguras do que outras e o encontro pode ser mortal algumas vezes; mas a hostilidade não existe fora da estratégia e da burocracia da convivência.

Quando alguém era lúcido chamava-se fino; e quando era inapto dizia-se que não compreendia. Ora, havia maneira de ligar essas duas situações mentais. Se alguém se podia qualificar como um homem fino mas que não compreende, tínhamos que inferir o seguinte: que era hábil para o comum, mas impróprio para coisas que exigem imaginação. São distinções muito subtis e não mais ensinaram na escola, exceto essa que é frequentada por gente menos aparente do que prática."

Leia este inédito e uma outra cónica na edição em papel ou e-paper do DN

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