Lavrar o Mar para semear espetáculos no Algarve

A dupla Madalena Victorino e Giacomo Scalisi programaram mais de mil apresentações para os vários municípios, até maio.

Nos últimos dias, Peter de Bie, da companhia belga Laika, andou a passear pela região de Aljezur e Monchique, no Algarve. Provou o medronho e visitou destilarias artesanais para saber como se fabrica este licor da região, foi visitar os produtores de mel e de chouriços, experimentou alguns pratos com a batata-doce da região.

Na próxima semana, Peter vai voltar, com a sua companhia, para fazer uma "versão algarvia" de Peep & Eat - Espreitar e Comer, um dos espetáculos icónicos da Laika. Neste teatro culinário, onde os espectadores são convidados para jantar uma refeição preparada ali mesmo à sua frente ao mesmo tempo que assistem a uma performance bastante divertida, Peter vai introduzir alguns dos ingredientes produzidos no local e quem sabe até convidar algumas cozinheiras da terra para participarem também.

Peep & Eat - que será apresentado em Aljezur, integrado no habitual Festival da Batata-Doce, nos dias 24 a 27 deste mês, e depois em Monchique, nos dias 1 a 4 de dezembro, é o espetáculo de abertura do Lavrar o Mar - as Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina, um projeto de programação artística concebido por Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, a dupla de programadores e encenadores que já nos habituou a um trabalho de criação com a população em territórios onde habitualmente ela não existe.

"Lavrar o mar é uma expressão que vi, pela primeira vez, num livro do psiquiatra Daniel Sampaio sobre a adolescência, que é uma fase de grande turbulência", explicou Madalena Victorino, na apresentação pública do projeto, ontem, no Palácio da Ajuda, em Lisboa. "É isso que queremos, pôr aquele território em turbulência", ri-se.

Lavrar o mar é também uma técnica pesqueira da apanha da sardinha e, na agricultura, lavrar significa mexer a terra para a tornar fértil e prepará-la para semear - tudo sentidos que agradam a Madalena Victorino.

Trata-se não só de trazer programação artística de qualidade a estes dois municípios - Aljezur e Monchique - de combater a sazonalidade com eventos que acontecem fora da época alta do turismo, como, sobretudo, promover a participação da população e estas trocas, sempre ricas, entre pessoas tão diferentes.

A programação tem a ambição de integrar a população autóctone, mas também "os imigrantes que vêm de muito longe para trabalhar nos campos, os estrangeiros que chegam ali como tivessem encontrado o paraíso, os filhos de todas estas pessoas que andam nas mesmas escolas" e os turistas que estão de passagem.

E é a pensar nisso que o próximo espetáculo acontece na passagem de ano - de 29 a 31 de dezembro - no heliporto de Monchique onde será instalada uma tenda de circo enorme para acolher o espetáculo francês de novo circo Maintenant ou Jamais (Agora ou Nunca). Depois, a programação continua, com residências artísticas e outras apresentações, culminando com um festival que vai acontecer em maio.

O projeto Lavrar o Mar é um sonho antigo de Giacomo e Madalena, agora tornado possível graças ao novo programa 365 Algarve - que junta os esforços das secretarias de Estado da Cultura e do Turismo, bem como do Turismo do Algarve, com as autarquias e os promotores culturais locais. Com um orçamento de 1,5 milhões de euros, a programação integra 63 projetos (1023 apresentações) nos vários concelhos, de outubro a maio. A ideia, explicou a comissária Dália Paulo, é ter eventos muito diversos - que passam pela gastronomia, a música, exposições ou espetáculos - ao longo de todo o ano, "conjugando a criação contemporânea com a identidade territorial".

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