Ken Loach, um cineasta dos tempos difíceis

O novo filme Eu, Daniel Blake, mas também Versus - A Vida e os Filmes de Ken Loach, e um ciclo na Cinemateca: pistas para redescobrir, a partir de hoje, o realizador britânico

Ele, Ken Loach. 80 anos, meio século de carreira, duas Palmas de Ouro. A primeira foi com Brisa de Mudança, em 2006, a segunda chegou-lhe às mãos Neste ano, na 69.ª edição do Festival de Cannes, posicionando-o entre os raros cineastas que duplicaram o feito, como Francis Ford Coppola e Michael Haneke. Ao receber o prémio, fez um breve discurso de alma política, sobre os tempos que atravessamos, as novas ameaças populistas numa Europa fragilizada. Eu, Daniel Blake, o filme vencedor, é coerente com essa lucidez face à atualidade. E é-o ainda mais em relação aos primeiros trabalhos do realizador, na década de 1960. Basta lembrar a polémica peça televisiva Cathy Come Home (1966), que chocou a população britânica com a cena de duas crianças a serem tiradas à força dos braços da mãe (uma visceral Carol White). Era preciso questionar, mostrando, a miséria da sociedade. Continua a ser.

A verve do cinema de Loach sempre foi - apesar de alguns desvios - a urgência do presente, uma energia do agora que sentimos mais violenta na tela. Afastado dos dramas de época, como o anterior O Salão de Jimmy (2014), Eu, Daniel Blake recupera essa pulsação genuína da sua obra ao retratar um carpinteiro de Newcastle, enredado, aos 59 anos, na burocracia e na modernização do sistema de segurança social. Viúvo e solitário, avesso às tecnologias e pronto a dar a mão a quem precisa, o homem cujo nome se lê no título partilha esta história com uma jovem mãe solteira, enviada de Londres com os filhos para uma habitação social naquela cidade do Nordeste da Inglaterra. Descobrem-se um ao outro na encruzilhada estatal, e num quadro de pobreza dickensiana. A amizade, apesar de não alimentar o estômago, dará alguma estrutura às existências precárias.

O comediante Dave Johns é Daniel Blake, e Hayley Squires a recém-chegada a Newcastle, Katie. Na linha da máxima autenticidade que Loach e o seu argumentista de há 20 anos, Paul Laverty, procuram, eis atores com os pés bem assentes na rugosidade do quotidiano, que reagem sem guião às situações.

Esse método é uma das curiosidades que se encontram em Versus - A Vida e os Filmes de Ken Loach, documentário de Louise Osmond (também estreia-se hoje) que cimenta um olhar em retrospetiva. A completar o ensejo de redescobrir Loach, a Cinemateca Portuguesa inicia amanhã o ciclo A Obstinação do Realismo, que dá o melhor de uma cinematografia nascida da vontade feroz de documentar, pela ficção, as convulsões e as injustiças sociais. Poor Cow (1967), Vida em Família (1971), Agenda Secreta (1990) e Ladybird Ladybird (1994) são alguns desses momentos, onde se identifica a génese ideológica de Eu, Daniel Blake.

Iniciado na BBC, como muitos realizadores da sua geração, Loach definiu cedo a distância justa da sua câmara, consciente da pulsão dramática das personagens, que se querem pessoas tão reais como nós.

A franqueza humana de Eu, Daniel Blake, é, aliás, o que o torna mais comovente. Não menos importante é ainda o labor do diretor de fotografia, Robbie Ryan, que diferencia, pela luz, a temperatura psicológica dos espaços: se no departamento de assistência social as imagens são frias, desalmadas, em casa, por mais que aí faça frio, há um calor afetivo que baixa a iluminação. Ken Loach fez um filme para inquietar o espectador, mas não deixa de querer que se sinta em casa.