Kazuo Ishiguro vence Nobel da Literatura

O mais recente Nobel da Literatura é o escritor nascido no Japão Kazuo Ishiguro e criado na Inglaterra. Após o anúncio polémico de Bob Dylan no ano passado a Academia Sueca volta a surpreender, desta vez pela positiva.

Era difícil prever o Nobel deste ano, e qualquer quer fosse o escolhido a surpresa seria sempre grande pois os últimos vencedores não se enquadravam na diretiva deixada por Alfred Nobel. Para a Academia Sueca justifica-se o Nobel da Literatura devido a ter "nos seus romances uma força emocional muito grande, e ter revelado o abismo entre o sentido do ilusório e a sua ligação ao mundo". Para a secretária permanente do Nobel da Literatura, Sara Danius, Ishiguro é um autor de grande integridade e absolutamente brilhante, com um universo estético muito próprio.

O anúncio surpreendeu pois, apesar do seu nome estar na lista de autores expectáveis, nunca esteve na primeira linha de potenciais vencedores. Entre os que primeiro parabenizaram Ishiguro pelo Nobel esteve Salman Rushdie, que não deixou de fazer uma piada sobre algumas semelhanças com Bob Dylan: "Ele toca guitarra e escreve canções também. Roll over Bob Dylan." O escritor foi coautor de vários temas da cantora de Jazz Stacey Kent, entre outras atividades musicais.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki mas viveu a partir da sua adolescência na Inglaterra devido aos seus pais terem emigrado para esse país. Daí ser considerado um autor nipo-britânico. Tornou-se cidadão inglês em 1982. Antes de se dedicar à escrita, queria ser músico, mas não foi aceite por nenhuma editora a quem enviou as suas composições. A sua formação académica foi nas universidades inglesas de Kent e East Anglia, licenciou-se em Inglês e Filosofia em 1978, tendo participado no curso de escrita criativa do escritor Malcolm Bradbury e Angela Carter, que terminou em 1980. Exerceu a docência e optou por ser, nas suas próprias palavras, "um escritor que deseja escrever novelas internacionais".

A sua obra está traduzida em mais de três dezenas de países e o jornal The Times colocou-o como o autor mais importante, em 2008, no 32º lugar entre os 50 escritores Britânicos mais importantes desde 1945. Ishiguro é um dos escritores da literatura contemporânea que mais tem sido nomeado para os prémios Man Booker, quatro vezes, e venceu na edição de 1989 com o romance Os Despojos do Dia (The Remains of the Day).

Se tivermos em conta a sua origem japonesa, Kazuo Ishiguro sucede a um outro escritor desse país, Kenzaburo Oe, Nobel em 1994. Aliás, numa entrevista com Oe, Ishiguro afirmou que os cenários dos seus dois romances iniciais eram pura imaginação: "Em Inglaterra, onde cresci, mantive sempre uma imagem muito forte do meu país de origem, com o qual sempre tive um ligação emocional".

Nascido em 1954, viveu até 1960 no Japão. O seu nome significa pedra e preto. Os seus dois primeiros romances passam-se no seu país de origem, mesmo que sempre negasse grande proximidade com a literatura do país de origem, aonde só voltou em 1989. Numa entrevista um ano depois, referiu que se escrevesse sob pseudónimo ninguém encontraria referências a essa cultura. Ao referir a sua herança nipónica, Ishiguro fez questão de dizer: Eu não sou inteiramente inglês porque descendo de pais japoneses e vivi num lar onde se falava a língua japonesa".

Em Portugal, existem algumas traduções da sua obra: As Colinas de Nagasaki, de 1989, pela Relógio D'Água; Nocturnos e O Gigante Enterrado, respetivamente de 2009 e 2015, editados pela Gradiva entre outros títulos. O seu romance, Never Let Me Go, contempla o fantástico ao escrever sobre uma versão distópica da Inglaterra.

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