Joy: de esfregona até ao topo

Jennifer Lawrence é Joy Mangano, uma criativa que fez fortuna nas televendas

A avó Mimmi acreditava no seu potencial, e sussurrava-lhe esperança pelos cantos da casa, desde a infância, enquanto a mãe inutilizava os dias prostrada diante da televisão, imersa nas novelas americanas - soap opera - que marcavam a cultura doméstica desses anos de 1990 (e ainda hoje). Joy Mangano, a empresária de sucesso, de 59 anos agora, tinha sido uma criança sonhadora, que construía reinos em papel, e foi perdendo a consciência do seu talento e criatividade, à medida que a vida se encarregou de lhe mostrar como é complicada... Mas nada estava perdido, quando finalmente acordou a arte e engenho que tinha dentro de si, e inventou a Miracle Mop, uma "esfregona mágica" que vingou expressivamente na indústria das televendas. Tudo aconteceu no meio de um caos familiar.

Precisamente, a família: é aí que está a orgânica do filme de David O. Russell, que não assumiu o retrato linear ou convencional de uma figura de sucesso. Há uma necessidade vital de reenquadrar o "conto de fadas" de Joy Mangano na tragicomédia da vida, que começa no contexto do lar. As tais soap opera que faziam os dias da mãe de Joy são, aliás, um sintoma do fenómeno de massas que a televisão começava cada vez mais a ser, e Russell inscreve o filme justamente nessa linguagem televisiva (até como opção estilística), para incorporar algo do sonho americano.

Cinema de (bons) atores

Jennifer Lawrence garante a liderança carismática, e de algum modo clássica, desta protagonista, fazendo-a saltar à vista numa galeria de personagens compreendidas entre a caricatura e o realismo. Este é sobretudo um cinema de atores, e o irregular retrato de família prossegue com Robert de Niro, que sublinha um elenco secundário, só por si, vigoroso, interpretando o pai explosivo de Joy, com uma namorada requintada - Isabella Rossellini - fornecedora do primeiro capital para a invenção. E há também uma meia-irmã rival, dois filhos e um ex-marido que, desde o divórcio, vive na cave: demasiada informação dentro de quatro paredes. Dentro delas, há quem a apoie, mas há sobretudo quem desconfie e augure o insucesso.

De mangas arregaçadas

Joy tornou-se o seu próprio génio da lâmpada e fez um caminho que começou exatamente na rua, com demonstrações da qualidade da esfregona em parques de estacionamento. Depois, procurou atrair as atenções do responsável de um canal de televendas (Bradley Cooper), que, com a atitude do realizador ou produtor visionário de Hollywood, apostou no talento que reconheceu ter diante de si. E apenas Joy encerrava a postura ideal para exibir o seu produto na televisão, era a mulher com que qualquer dona de casa se identificaria: de mangas arregaçadas.

A cumplicidade de David O. Russell e Jennifer Lawrence, à semelhança de uma dupla como Marlene Dietrich-Joseph von Sternberg, traduz-se no mútuo enaltecimento dos seus nomes. Joy é a terceira colaboração entre o realizador e a atriz americana, que recebeu um Óscar logo no primeiro trabalho conjunto - Guia para Um Final Feliz (2012). E se é verdade que desde então o nome de Lawrence ganhou absoluta visibilidade, não é menos verdade que há uma marca distintiva nas produções em que os dois espíritos se encontram.

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