José Cutileiro: "Não acho que haja pequenez em Portugal"

José Cutileiro viveu por dentro as últimas décadas da história de Portugal e reflete sobre os acontecimentos a propósito do livro Abril e Outras Transições.

O ex-embaixador José Cutileiro passou a escrito uma ínfima parte das memórias. Habituado ao estilo de longos parágrafos, surpreende os leitores com a capacidade de síntese em Abril e Outras Transições. Mais de cem páginas em que um olhar crítico e conhecedor faz a revisão da história numa entrevista ao DN.

Não vale a pena passar das folhas iniciais para fazer esta pergunta. Porque se define "antropologista errante"?

Defino-me como "um antropologista errante" porque penso que o sou. Estudei antes outras artes (arquitetura, medicina; de maneira autodidata, literatura) e, antes e depois, pratiquei outros ofícios (poeta, tradutor, cronista (Almanaque; Kotter), publicitário, diplomata, alto funcionário nacional e internacional, consultor em política internacional, mas, ao escrever o livro, tornei a dar-me conta de que a maneira de ver e entender é marcada pela antropologia social (ou por temperamento que dela gosta e se serve). Errante porque fiz muitas outras coisas.

Vamos à primeira página. Ao saber do 25 de Abril de 1974, a dúvida foi se era uma revolta militar "de direita ou de esquerda"? Achava que a direita estaria cansada do sucessor de Salazar?

Parte da direita mais extrema - também entre militares - estivera sempre contra Caetano. Havia muitas intrigas e boatos. Depressa se viu do que se tratava, mas longe de Portugal e da política ativa, legal ou clandestina, a pergunta fazia sentido - pelo menos para mim.

Quem continua a folhear o volume treme perante a sua afirmação de que as "conquistas de Abril" mais não foram do que "outorgas" para "manterem o povo contente enquanto a descolonização decorria". É assim tão simples?

Outorgas e não conquistas. Enquanto na Europa Ocidental havia decénios de experiência de luta sindical aberta em que, dum lado e do doutro, se tinham modulado estratégias e táticas e tinham aparecido sindicalistas de grande experiência e prestígio. Melhorias de vida, novos direitos tinham sido conquistados palmo a palmo, a pouco e pouco, ao longo de anos de luta sindical. No Portugal de Salazar não houve nada disso. O MFA decidiu dar ao povo o que o Partido Comunista lhe disse que o povo queria e promoveu as outorgas que pôde (a reforma agrária é bom exemplo). É um facto que o rumo político mudou radicalmente logo a seguir à última independência (a de Angola). "É assim tão simples?", pergunta-me. Nada é simples, em revoluções.

Refere numa linha o Portugal de Salazar e logo à frente Donald Trump. Associação de personalidades?

Nem por sombras. O que o parêntesis põe em foco é a separação, o hiato, entre o "povo" e as "elites" americanos que Trump tinha intuído desde o começo da campanha presi- dencial e Hillary parece não ter medido bem ainda.

Goza com protagonistas do PREC. Pinheiro de Azevedo, por exemplo. Eram de segunda linha?

Não gozo com protagonistas do PREC. Conto um episódio em que participei que exemplifica as contradições fundas na cabeça de um dos membros do MFA. É preciso lembrarmo-nos de que a contradição era real. Em outubro de 1974, comecei um artigo para o Diário de Notícias assim: "Portugal deve às Forças Armadas seis meses de liberdade depois de lhes ter devido 48 anos de opressão", e o diretor pediu-me para a suprimir e começar com a frase que se seguia: "O Estado Novo viveu apoiado no poder militar e caiu quando este se virou contra ele" - o que fiz. Conheci vários dirigentes do MFA, alguns inteligentes, decentes e de bom senso. E devemos-lhes, a todos, a coragem e a capacidade de organização que libertou Portugal do Estado Novo, sem derramamento de sangue na metrópole - para usar a terminologia da altura.

A pessoa que mais cita é Soares!

O livro baseia-se em reminiscências minhas e não pretende ser uma breve história do 25 de Abril. Posto isto, não cito Soares, menciono-o várias vezes devido ao papel crucial, impedindo, na rua e depois nas urnas, que o PCP viesse a partilhar o poder no Portugal constitucional. Conhecia-o há muito tempo, mas, independentemente disso, na altura não houve outro com importância igual para a salvaguarda da democracia.

Afirma que o 25 de Abril é "o momento da vida em que mais alegria senti". O que gostaria que tivesse sido diferente a partir do dia 26?

O momento público; não privado. Não sei dizer-lhe. No 6.° ano do liceu segui num ponto Antero de Quental e atribuí a decadência dos povos peninsulares à monarquia absoluta, ao catolicismo de Trento e às consequências económicas das descobertas. O professor não me deu nota, escrevendo no ponto que, embora argumentasse bem, contrariava a posição oficial do governo. Há males que vêm muito detrás e não se debelam de um dia para o outro. E há uma espécie de estratigrafia: Salazar, afinal, talvez não tivesse sido a causa dos nossos males, mas sim a consequência. Decência e honestidade nunca deveriam ceder a lealdades familiares, locais e - agora muito na moda, como nas últimas décadas da monarquia liberal e na I República - partidárias (hoje é pior porque há muito mais dinheiro). Em geral, vai-se melhor do que no tempo do Estado Novo: não há "livros únicos" no ensino, censura prévia, nem PIDE a prender-nos ao romper de manhã e a ler-nos a correspondência.

Pede desculpa por comparar - por razões profissionais - o fim do apartheid à dissolução da Jugoslávia. A história vista décadas depois não perde alguma nitidez que permite fazer isto?

O pedido é retórico. O que junta os dois casos neste livro são acasos profissionais na vida do autor, mas tal permitiu a lembrança de contrastes instrutivos: na qualidade humana das chefias políticas e nas posições das diferentes igrejas - lembrança que o tempo não atenuou.

"Portugal passara a ser o centro do mundo e muitos portugueses julgavam-se com lugar cativo na história." Até hoje é assim a nossa pequenez?

Não acho que haja pequenez em Portugal. A gente que encontrei mais convencida de ser a melhor do mundo é a americana (e a chinesa). Os pequenos só raramente têm lufadas desse engano, ingénuo e estimulante. A seguir ao 25 de Abril, o Times de Londres mencionou Portugal todos os dias durante quase quatro meses. E com todo o respeito por prémios da canção e do futebol, e por disciplina nas contas públicas, o 25 de Abril foi maior do que tudo isso.

Recorda o seu "chorado amigo A.B. Kotter". Está definitivamente enterrado?

Que saiba, sim - mas o Senhor J. Fonseca que emigrara para França na mira de arranjar emprego numa empresa de Pierre Bergé, e voltou de mãos a abanar, reparando que nos 80 anos de John Le Carré se está outra vez a falar muito de espiões ingleses lembrou-me que "como o Sr Dr. era do MI6, naturalmente não esticou o pernil e anda lá pelo Cazaquistão". Achei um disparate mas ele ficou na sua: "Consta-se", ripostou.

Abril e Outras Transições

José Cutileiro

Editora D. Quixote

130 páginas

PVP: 11,90 euros

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