João Só e a arte de fazer hoje canções que parecem mesmo saídas de 1986

O músico João Só é o responsável pela banda sonora da série de Nuno Markl, que conta com participações de Ana Bacalhau, Samuel Úria, David Fonseca e Lena D"Água, entre outros. A 17 de maio há concerto na Altice Arena.

Em 1986, o músico João Só nem sequer ainda tinha nascido. Mas isso não interessa nada. João Só é "uma autêntica enciclopédia musical", diz Nuno Markl. E talvez por isso os dois se deem tão bem. Quando Markl diz que imagina uma música com um toque de Sioux and the Banshees, João Só nem sequer precisa de ir ao Google para saber do que se trata. Ele sabe de cor essas músicas. E o mesmo acontece se falarmos em coisas tão diferentes quanto Human League ou The Smiths. Por isso, quando Markl começou a escrever o guião da série 1986 e decidiu que para além dos temas da época o que seria mesmo fixe era ter temas novos, interpretados por artistas de hoje mas soando a 1986, não teve quaisquer dúvidas de que João Só seria a pessoa certa para o fazer.

Só e Markl conheceram-se algures em 2009 e pouco depois tornaram-se parceiros num programa do Canal Q que se chamava Telebaladas e depois também na rubrica As Baladas do Dr. Paixão, na Rádio Comercial. Em ambos, duas características: um gostinho especial por canções algo pirosas, "azeiteiras mesmo", recorda João Só; e além disso o desafio ao músico para fazer canções e novas versões a partir desse material. "O Markl tem o condão de me desafiar a fazer estas coisas mais insanas", ri-se João Só.

A banda sonora de 1986, a série que passa nas noites de terça-feira na RTP, é mais uma dessas maluquices que começa numa conversa à mesa do café e acaba com um grupo de amigos em estúdio, não só a gravar alguns temas soltos para uma série de televisão mas, mais do que isso, a fazer um disco completamente novo, que tem uma vida própria e ainda dará origem a um concerto na Altice Arena, em Lisboa, a 17 de maio.

Para construir as várias personagens de 1986, Nuno Markl criou uma playlist imaginária para o walkman de cada uma delas. Por exemplo, na mixtape da Marta encontramos Romeo and Juliet, dos Dire Straits, e I'm Your Man, de George Michael. Na mixtape da Patrícia, a miúda gótica do liceu, não podiam faltar The Cure e Bauhaus. E na mixtape de Tiago, o protagonista, estão Bruce Springsteen, U2, Talking Heads e Pet Shop Boys, entre outros.

João Só, que tem 29 anos, passou os olhos por esta seleção mas nem precisou de ouvir todas as músicas. "O meu grupo preferido são os Beatles. No meu pódio só há um lugar e é deles. Mas eu gosto mesmo de ouvir música e ando sempre à procura de coisas novas e antigas", explica. "Há muitas pessoas que sofrem um bocadinho com vergonha de confessarem os seus guilty pleasures, eu não tenho esses problemas", diz João Só. "Nos anos 60 havia as guitarras, depois nos anos 70 aquilo começou a resvalar para os sintetizadores. E nos anos 80 voltam as guitarras e juntam-se aos teclados e é tudo no máximo. Aquilo é bom, as melodias são incríveis. Claro que pode haver ali umas bandas de hair metal de que se calhar não gosto tanto, mas a última vez que vi um cartaz anunciando os Whitesnake em Lisboa fiquei cheio de pena de não poder ir ver, adoraria."

"Eu vejo a história da música pop, de 60 para a frente, muito pelo percurso do Paul McCartney, que é um dos meus ídolos, porque ele atravessou as fases todas", explica. "Ele esteve ativo em todas. Trabalhou com os Pink Floyd, o Lionel Richie, o Michael Jackson, ele sempre acompanhou o que se estava a fazer. E pode ter umas coisas mais pegajosas e mais escorregadias, mas também tem muita qualidade em todas as épocas."

O resultado desta imersão em 1986 é um disco com oito temas, dos quais apenas dois não são assinados por João Só: Hoje Eu Vi o Mundo, composta por Miguel Araújo que interpreta com João Só; e Ninguém, composta e interpretada por David Fonseca, que é o tema que acompanha a personagem de Tiago e é por isso uma canção sobre a "angústia dos adolescentes". "A letra resume tudo da personagem: a sensação de inadaptação, solidão, invisibilidade e de escape dos heróis do ecrã", explica Markl.

O disco abre com o tema do genérico, Electrificados, com vozes de Lena D"Água, Catarina Salinas e João Só, um tema que tenta resumir o espírito da série, "com uma letra politizada mas leve ao mesmo tempo", explica o autor e produtor, que fez a canção a meias com Henrique Oliveira - que, além de realizador de 1986, foi um dos fundadores do grupo musical Táxi (foi ele que escreveu o tema Chiclete).

Depois há Pensamos no Futuro Amanhã, cantada por Ana Bacalhau (o tema da Marta), América ao Pequeno-Almoço, interpretada por Samuel Úria (e com referência ao famoso Breakfast in America dos Supertramp), O Que É Que Vês, na voz de Márcia e Tatanka, Quanto É Que Falta, que o próprio João Só interpreta para a personagem do metaleiro Sérgio e, por fim, A Verdade nunca Sai à Rua, na voz de Rita Redshoes para a personagem de Patrícia. Pelo meio, excertos de alguns dos diálogos da série.

Ao mesmo tempo que se prepara para apresentar o seu disco novo como "João Só normal", como ele diz, que se chama O Bom Rebelde (sai a 6 de abril), com direito a concerto no Tivoli, em Lisboa, a 12 de abril, o "João Só oitentas" continua a trabalhar sobre estes temas de 1986 e a ter ideias. No concerto de maio, que tem como objetivo ajudar a associação Novo Futuro, cada um dos intérpretes irá cantar a sua música e ainda escolher uma canção dos anos 80. João Só ainda não sabe o que vai cantar mas é muito provável que escolha um dos temas de Reckless, o disco de Bryan Adams, que é um dos seus discos preferidos dos anos 80: "Aquilo até parece um best of, de Somebody a Heaven, passando por Run to You ou Summer of 69, é um disco só com êxitos." E ainda há quem diga mal dos anos 80.

1986: O Disco
Vários
Editora Sony Music
PVP: 13,90 euros

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