João Nicolau, ator no arame, alentejanista e tudo

Autora da biografia de Nicolau Breyner editada em 2010, Sarah Adamopoulos recorda o alentejano João Nicolau

Há dias, a pretexto de um retrato do Alentejo arremessado por um atual polemista de serviço, que terá com ligeireza desonrado a identidade e a memória da nação alentejana (não o li, por isso vou com cautelas), estive vai-não-vai para ligar ao Nico a perguntar se o tinha lido. Afinal, foi pela sua mão que me tornei oficialmente o que no fundo já era: alentejana (alentejana do Peloponeso, o Alentejo da Grécia), porém desde então detentora de um passaporte, um passaporte alentejano! Decorreu a cerimónia à porta fechada, em habitação particular sita no bairro lisboeta da Lapa, e tendo tido por únicas testemunhas os imponentes (e também eles muito alentejanos, apesar das origens francesas) cães do Nico, ou aliás, do João Nicolau, pois é esse o nome que o assento de nascimento atesta como tendo ele sido um fruto do lugar alentejano serpense dito dos Pereiros de Baixo - onde, por ser monte e não vila, e talvez justamente por ali serem mais nítidas as estrelas e menos misteriosos os ventos, há homens que desfiam perante Deus as mais estranhas contas de um rosário que só a eles (homens e Altíssimo) diz respeito: vezes houve nos montes de Serpa quem tenha sido avistado regando as terras minutos antes de chover, para que nada se ficasse a dever a cabrão nenhum.

Chaparro absoluto (assim dizia de si próprio para explicar aos outros essa parte fundamental de quem era), e apesar de tornado - pela vivência na cidade, a que incessantemente acrescentou turbulência, como se para livrar-se de alguma modorra que fosse preciso espantar - um alentejano rápido (imagine-se tal coisa), foi a pessoa mais alentejana que conheci, e já conheci muitas. Era alguém a quem "o Sol aconte[cia]/ao mesmo tempo que [ele]/olha[va] à sua roda/ e vi[a] o [s]eu presente/ a ser-[lhe] a vida toda" e a quem "as rosas (...) e as aves e o Mar" (para usar as palavras de Sebastião da Gama que ele não se cansava de evocar) nasciam a cada dia para lhe oferecer, perante a sua gratidão enternecida de merecê-lo, um dia completamente novo e claro. João Nicolau era essa pessoa "chaparra" e tão delicada (outras palavras para dizer alentejano, lá está) que tive a sorte de conhecer mais de perto por ter sido chamada a escrever, por ocasião dos seus 50 anos de carreira e 70 de vida, aquela que o seu inesperado desaparecimento tornou a sua primeira e única biografia até à data.

Vigoroso fruto de um desses pereiros do monte, e um fervoroso alentejanista (condição que era nele mais relevante do que a do benfiquista), havia nele, como há no território do Alentejo, uma nobreza natural - distinção constitutiva dos que, sendo emanações da terra forte e árida (de vastidão e temperaturas diabólicas), transportam no que são, e independentemente do lugar na história social de que sejam herdeiros, a robustez e a majestade da campina. Como, se não tivesse sido esse chaparro que digo, poderia Nicolau Breyner ter sido o actor no arame que fez dele um dos maiores músicos de jazz do teatro popular português? E escrevo teatro porque, apesar de ter sido um amante (para dizer o que ama sem jamais perder o desejo) do cinema, e um amigo de longa data da televisão (velha amizade que, na verdade, remontava aos comezinhos da tevê em Portugal), Nicolau pertencia ao teatro, era das tábuas e dessa efemeridade, sobreiro novo a cada representação.

Como posso afirmá-lo com tamanha convicção de estar certa? Porque posso, porque fiz com ele um intenso pequeno pedaço de caminho (por vezes sozinha, como quando fui para Serpa andar naquele empedrado irregular da vila e nos montes sem vivalma para perceber melhor quem ele era) que tornou evidentes duas coisas principais. A primeira: que Nicolau Breyner, aliás, João Nicolau, era completamente alentejano (e não, não esqueço as heranças nortenhas - gondomarenses - do lado paterno, de certa forma tornadas rarefeitas pela força e encanto superlativo - para dizer sortilégio - do Alentejo). Por saber isso, escolhi a palavra Serpa para começar o texto da sua biografia que, em conformidade, se lançou pela primeira vez publicamente e com alentejana e inultrapassável pinta na Casa do Alentejo, em Lisboa, e depois em Serpa, claro. A segunda: que Nicolau Breyner era do teatro, um seu "brilhante ator de comédia", como bem lembrou Eunice Muñoz e Jô Soares (seu "gémeo univitelino", nas palavras do humorista brasileiro) confirmou em declarações colhidas para a referida biografia.

Do resto desse pedaço intenso de pequeno caminho feito com o João Nicolau fica-me, numa última colherada pequena e rápida, a memória de uma noitada inesquecível em sua casa, na companhia dos atores e seus amigos António Melo, Joaquim Nicolau e José Raposo, com quem revisitámos juntos a história do teatro em Portugal - parcialmente narrada em Nicolau Breyner - é melhor ser alegre que ser triste (Planeta, 2010). E também as longas conversas que ele e eu tivemos quando, uma vez chegada à sua casa na Lapa, depois de para lá caminhar desde a Graça, lhe pedia permissão para me descalçar e ele fazia logo o mesmo, e ficávamos ali os dois descalços a rir das coisas espantosas e inacreditáveis que acontecem a quem está vivo.

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