Jim McBride vem à Cinemateca falar da vanguarda dos anos 60

"David Holzman"s Diary" é um título fundamental da vanguarda americana dos anos 60 - o realizador, Jim McBride, estará hoje na Cinemateca para apresentar o seu filme.

Jim McBride estará hoje à noite na Cinemateca (21.30) para apresentar o seu primeiro trabalho de realização, David Holzman"s Diary, produzido em 1967. Para além dos seus ecos nos caminhos de algum cinema do século XXI - trata-se de uma experiência pioneira na fronteira documentário/ficção -, este é também um símbolo exemplar da vanguarda cinéfila americana da década de 1960.

David Holzman"s Diary surgiu num fascinante contexto de criatividade e experimentação. Ao contrário do que é sugerido por uma visão "europeísta" das novas vagas cinematográficas, a produção americana vivia também momentos de profunda transformação, num processo de reavaliação crítica da herança clássica. Para nos ficarmos por duas referências emblemáticas, lembremos que 1967 é também o ano de Bonnie e Clyde, o filme de Arthur Penn que revolucionou conceitos temáticos e modos de produção, e Quem Bate à Minha Porta?, primeira longa-metragem de Martin Scorsese (a passar nos canais TVCine).

As experimentações da época são indissociáveis das alternativas criadas por equipamentos de rodagem que, na sua "pequenez" física, facilitavam o registo de imagens e sons. David Holzman, personagem central e narrador do filme, começa por nos apresentar tais equipamentos (a câmara Eclair e o mítico gravador Nagra) como inerentes ao seu projecto. A saber: registar um diário que funcione como uma espécie de hiato emocional entre o facto de ter sido despedido do seu trabalho e um possível recrutamento para combater no Vietname.

O resultado é uma deambulação paradoxal, ora grave, ora irónica, combinando momentos em que Holzman fala directamente para a câmara com cenas de reportagem mais ou menos desconcernates (incluindo uma em que um amigo lhe faz ver que o seu filme não tem coerência). Estamos perante um exemplo primitivo de "falso documentário" ("mockumentary", na gíria anglo-saxónica), modelo depois explorado em filmes tão diferentes como Zelig (1983), de e com Woody Allen, Manual de Instruções para Crimes Banais (1992), de Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde (com Poelvoorde como figura central), ou Borat (2006), de Larry Charles (que deu fama internacional a Sacha Baron Cohen).

Nascido em 1941, em Nova Iorque, Jim McBride viria a tornar-se especialmente conhecido através de Breathless/O Último Fôlego (1983), variação "made in USA" da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard (O Acossado, 1959), com Richard Gere e Valérie Kaprisky.

Depois, títulos como The Big Easy/Nas Teias da Mafia (1986) e Rock de Fogo (1989), este dedicado à carreira de Jerry Lee Lewis, terão confirmado a sua ligação simbólica com alguns modelos clássicos de pequenas produções que, em qualquer caso, ele não gosta de evocar.

Passados mais de 50 anos, David Holzman"s Diary envolve também uma especial nostalgia relacionada com o intérprete de Holzman. É ele L. M. Kit Carson (1941-2014) que voltaria a trabalhar com McBride no argumento de Breathless. Carson possui como momento fundamental na sua filmografia a colaboração com Sam Shepard na escrita do argumento de Paris, Texas (1984), de Wim Wenders. Revê-lo agora filmado por Jim McBride é também reencontrar um espírito de experimentação, instintivo e poético, que talvez já não exista.

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