Jennifer Lawrence vestida (e despida) para matar

"A Agente Vermelha" é a nova colaboração entre a atriz americana e o realizador dos três últimos "The Hunger Games", Francis Lawrence. Estreia-se em Portugal nesta quinta-feira.

Já não se fazem filmes de espionagem como antigamente, é certo. E também já não se encontram agentes com a arte da sedução de Marlene Dietrich ou Greta Garbo. No entanto, pode dizer-se que ainda existe cinema disposto a restituir algumas das linhas clássicas desses dramas de manobras secretas, que hoje em dia se transformaram em apanágio da narrativa de ação (basta lembrar o recente Atomic Blonde, com Charlize Theron).

É com tais linhas que se cose A Agente Vermelha, filme que vive de uma robusta performance de Jennifer Lawrence, mas que consegue ir além da sua protagonista para elaborar uma atmosfera de elegância e jogo perverso. Assim, ficará este título na memória pela polémica do vestido decotado da atriz, aquando da promoção em Londres, ou pelo seu concreto valor cinematográfico? Nestes tempos de súbitos excessos mediáticos, vale a pena avaliar o que resta de essencial.

Sem entrar na fileira das melhores produções do género, é preciso contudo notar que o realizador dos três últimos The Hunger Games, Francis Lawrence, alcançou aqui algo digno de atenção. Baseado no romance de Jason Matthews (autor que trabalhou na CIA), A Agente Vermelha beneficia de uma inclinação específica para a imoralidade, enquanto motor narrativo, que se desvia do mais estafado caderno de encargos. Em lugar de uma combinação enérgica de eventos, temos a história pessoal de uma talentosa ex-bailarina russa, Dominika Egorova, forçada a servir a pátria como agente secreta.

Quando o filme começa, ainda a vemos dançar num espetáculo do Teatro Bolshoi - a instituição que lhe paga o apartamento onde vive com a mãe doente. E é nessa admirável sequência preambular, com uma alternância visual entre o palco e uma operação obscura a decorrer no exterior, que se lançam as notas trágicas deste retrato humano. No final do bailado, Dominika terá partido a perna, e o seu destino fica nas mãos do tio, que lhe oferece a única oportunidade de continuar a manter a casa antes financiada pela escola de ballet. A partir daqui a protagonista entra num processo de sobrevivência que tem particularmente que ver com a superação de obstáculos: físicos, psicológicos e morais.

No centro dessa provação está uma academia dos serviços secretos russos, liderada por uma implacável mulher (Charlotte Rampling), onde decorrem as situações sexualmente mais obscenas e destemidas do filme. Estamos, no fim de contas, a falar de um sistema que treina sórdidas práticas de sedução, dotando os seus espiões de uma vincada postura imoral para atrair o inimigo. E com toda a coragem do mundo, Jennifer Lawrence dá razões de sobra para acreditarmos que ela será fabulosa na sua primeira missão: seduzir e arrancar informações de um agente americano interpretado pelo cada vez mais recomendável Joel Edgerton...

Eis um filme de indústria capaz de evitar os clichés das grandes produções (não há uma única cena de perseguições de carros, por exemplo), para favorecer a subtileza das relações humanas. É nesse tabuleiro que A Agente Vermelha joga, mostrando que há mais espionagem para lá da arma em punho, e dando espaço à dimensão dramática da personagem principal. Mais do que seguir os seus movimentos, interessa perceber o que os dita, dentro da teia que define uma nova guerra fria. Nesse sentido, esta não será a mais exemplar lição de estratégia, mas um bom exercício de cinema à procura de algumas raízes clássicas. Quanto à perversidade, nas mãos de Brian de Palma este seria mesmo um grande filme.

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