Jake Gyllenhaal interpreta uma odisseia de resistência

Em "Stronger - A Força de Viver" é evocada a dramática odisseia de Jeff Bauman, um dos feridos no atentado da Maratona de Boston.

Há boas razões para o novo filme protagonizado por Jake Gyllenhaal se intitular Stronger - à letra, "Mais Forte". Lançado entre nós com o subtítulo A Força de Viver (estreia-se hoje), este é, de facto, um conto de sofrimento e superação em que a personagem central se vê compelida a desafiar todos os limites físicos e psicológicos.

Estamos perante a história verídica de Jeff Bauman. No dia 15 de abril de 2013, ele foi um dos mais de 250 feridos no atentado bombista perpetrado nos momentos finais da Maratona de Boston. Para além das vítimas (morreram três pessoas na zona da meta), a violência do ato terrorista foi também sentida, obviamente, como uma agressão contra valores de desportivismo e solidariedade expressos através de um evento que há muito adquiriu um estatuto lendário - a cidade organiza a sua maratona desde 1897.

Bauman perdeu as pernas na explosão, vendo-se forçado a viver um doloroso processo de recuperação. Mas o filme está longe de se poder resumir como uma odisseia física. Tendo como ponto de partida o livro que o próprio Bauman escreveu (com a colaboração de Bret Witter), o realizador David Gordon Green explora as peculiares tensões que se vão revelando entre intimidade e vida pública. Bauman vê a sua existência vacilar entre o espaço familiar, liderado por uma mãe alcoólica (Miranda Richardson), e a instável relação amorosa com a jovem atleta (Tatiana Maslany) que tinha ido apoiar, precisamente, na zona da meta; ao mesmo tempo, a sua dramática recuperação física irá transformá-lo em herói incauto de um público que nele celebra a resistência a todas as adversidades.

Escusado será dizer que, logo após o atentado, a fragilidade de Bauman é profundamente comovente. Em todo o caso, a realização evita transformar o filme num requiem simplista por uma vítima. David Gordon Green é, aliás, um, bom retratista de personagens que escapam às mais banais matrizes sociais ou dramáticas - recorde-se o caso exemplar de Joe (2013), centrado numa magnífica composição de Nicolas Cage como um ex-recluso, agressivo e intratável, que passou a trabalhar como capataz de uma zona florestal.

Desta vez, é a composição de Jake Gyllenhaal que se revela decisiva (sem esquecer o trabalho admirável de Tatiana Maslany na personagem da namorada). O ator sabe compor a figura de Bauman muito para além da nova e cruel verdade do seu corpo. Vale a pena referir, a esse propósito, que os artifícios técnicos para figurar Bauman sem pernas são absolutamente surpreendentes (desmentindo a noção segundo a qual só há efeitos especiais quando vemos naves ou monstros...). O certo é que todo o filme está longe de se polarizar no mais visível, nunca abdicando de tratar Bauman como um homem com sérias dificuldades para aceitar lidar com a consagração pública da sua figura.

No princípio deste ano, vimos Patriots Day - Unidos por Boston, de Peter Berg, com Mark Wahlberg e Kevin Bacon, filme com o mesmo pano de fundo, mas centrando-se na corrida contra o tempo para identificar, localizar e capturar os terroristas. Agora, Stronger - A Força de Viver consegue, por assim dizer, corrigir os limites desse primeiro filme: passou-se das regras do policial mais convencional para um registo dramático em que a irredutibilidade de cada ser humano se impõe como valor fundamental.

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