Isaura e Cláudia prometem "dar luta" a defender legado de Salvador e Luísa Sobral

O Jardim revelou-se a canção preferida do público e dos jurados. Foi escrita em homenagem à avó de Isaura, que pela primeira vez compôs em português. A dupla promete lutar e desafia os fãs a usar perucas cor de rosa

As duas vencedoras do Festival da canção eram o espelho da emoção e da surpresa no final da gala que as nomeou como as representantes de Portugal na final da Eurovisão, a 12 de maio, em Lisboa. Depois de um empate com a música de Júlio Resende cantada por Catarina Miranda, as duas sagram-se vencedoras graças à preferência do público. "É tão bom", resumiu Cláudia Pascoal. Isaura preferiu garantir a todos que "confiaram" na dupla que agora iriam "para casa trabalhar". Sublinhando quererem "deixar os portugueses orgulhosos", promete: "Vamos dar luta."

Rodeadas por dezenas de jornalistas, Cláudia e Isaura confessaram estar demasiado cansadas para festejar na própria noite. "Acho que vou ser a primeira pessoa a adormecer no nosso hotel", admitiu a compositora da música O Jardim. Sem deixar de acrescentar: "Vou mesmo feliz, com um sentido de missão cumprida. De facto, esforçámo-nos e quisemos dar o nosso melhor, independentemente do resultado." Depois do trabalho intenso para fazer a canção que acabou preferida do público e em segundo lugar no final da votação dos júris regionais, Isaura admitiu que o seu álbum em nome próprio vai muito provavelmente "demorar mais uns diazinhos" a sair.

Depois de escrever a sua primeira música em português que fala sobre a morte da avó, a jovem compositora deixa a garantia que vai fazê-lo mais vezes no futuro. Sobre os sentimentos de que a canção fala, considera que talvez essa identificação foi sentida em casa e isso levou à vitória. Cláudia Pascoal, que já participou no programa The Voice, quis também "gabar a música da Isaura". "Mal ouvi a música de Isaura emocionei-me também porque realmente é quase dolorosa porque fala sobre saudade, mas também é reconfortante porque nos encontramos de certa forma com as pessoas que já aqui não estão", elogia a cantora de Gondomar. A pensar na atuação na Altice Arena, Cláudia admite que se trata de "uma responsabilidade", ao mesmo tempo que é "reconfortante" cantar "pertinho" de casa. Desafia ainda os fãs a levarem perucas cor-de-rosa para a final. Já Isaura promete transformar "a responsabilidade acrescida" em "garra". "Não quero falhar a ninguém, a ninguém que votou, que gosta da canção e que acredita que nós devemos ir representar Portugal."

Talentos descobertos

O jornalista Nuno Galopim, responsável com Henrique Amaro pelos convites aos compositores que apresentam canções para a Eurovisão era mais um entre músicos, fãs e elementos da produção no final do Festival da Canção. Leu assim a vitória da canção O Jardim: "Esta vitória representa o acrescentar de um episódio à narrativa de reinvenção do festival que é juntar à canção interpretação do Salvador um outro espaço estético da música portuguesa, é igualmente representativa do melhor que se está a fazer entre nós", refere.

Nuno Galopim recua no tempo ao momento, até ao momento em que escolhendo várias gerações, decidiu incluir também "uma pop contemporânea capaz de lidar com as eletrónicas com personalidade de autor".

"A Cláudia, com o corpo, consegue acrescentar algo que ao que as letras nos dizem, é pelo corpo juntamente com o canto, que a canção agora consegue falar para 42 países quando não compreendem português", defende Nuno Galopim, referindo-se ao número de países que concorrem à Eurovisão, a próxima produção de grande escala da RTP.

Se quiser fazer um balanço das interpretações deste Festival, Nuno Galopim refere a descoberta de Emmy Curl, alter ego musical de Catarina Miranda. "Um nome incrível da nossa música contemporânea". Mais: "Permite-os descobrir um novo talento num espaço, o fado, que não o é. Peu Madureira tem aqui uma janela de oportunidade; e, depois, dá a conhecer um grande talento, que é Janeiro", considera. "Nomes que até aqui não eram muito conhecidos e que através do festival conseguem ter uma janela de música. Ajuda a dar visibilidade ao que de melhor se faz na música portuguesa."

Peu Madureira aproveitou o final do espetáculo para conversar com a sua claque. Chegou à final como um dos favoritos, foi o mais votado pelo público ma primeira semifinal. "O terceiro lugar é ser preferido, é não é motivo de descrédito", afirma. "Mesmo o júri que me deu abrigo, o que me merece é que eu trabalhe mais", diz o fadista descoberto pelo compositor numa igreja. "Eu estava no coro e cantei a Ação de Graças".

Peu Madureira ainda não sabe o que fará com a canção. "O Diogo [Clemente] dirá o que quer fazer daqui em diante", reflete. O mesmo diz ao DN a cantora de Anda Estragar-me os Planos, de Francisca Cortesão (música) e Afonso Cabral (letra). "Estas músicas têm uma segunda vida para além dos Festival", considera Joana Barra Vaz, mais habituada a compor e escrever do que a interpretar. A canção de Isaura agradou a estes dois concorrentes. "Muito emocional", opinou Joana Barra Vaz. Peu Madureira disse gostar "muito" do poema.

Realização cruise control

Nesta emissão do Festival da Canção foi usado o mesmo sistema de automação da realização que será usado no Festival da Eurovisão, a 12 de maio. Com ele os movimentos de câmaras e planos são desenhados antes do programa como o guião de um filme ou série. O realizador [Pedro Miguel Martins] é obrigado a pensar em abstrato", conta Gonçalo Madaíl, coordenador desta operação, com o mesmo papel na Eurovisão. Foi assim em Kiev e será assim em Lisboa. "Este foi um teste para a Eurovisão", admite. Compara este modelo ao sistema cruise control dos carros. "A qualquer momento, basta carregar num botão e é possível alterar tudo", explica. Foi, aliás, o que aconteceu na última parte do programa. "Não podemos prever a ovação a Simone ou as reações dos vencedores", diz, em jeito de exemplo.

Na primeira fila, aliás, estava sentado Jon Ola Sand, produtor executivo da Eurovisão, com quem Gonçalo Madaíl se reúne hoje. A Eurovisão é o objetivo. Faltam 63 dias.

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