Yann Martel. A vida depois de Pi é em Portugal e com um chimpanzé

Tuizelo? O que é perguntarão os leitores portugueses quando lerem o novo romance de Yann Martel, o autor de A Vida de Pi. Resposta: é uma povoação em Trás-os-Montes, onde se passa grande parte do livro.

Os viajantes estrangeiros sempre foram apaixonados pelo extremo ocidental da Europa, aquele retângulo chamado Portugal, e é bastante frequente escreverem livros inspirados no que viram e ouviram, comeram e beberam, viajaram e visitaram. Vai daí, na próxima terça-feira sai mais um livro que tem Portugal como cenário geográfico e mítico, desta vez um tão curioso como alegórico romance de um autor mais do que celebrado: Yann Martel. Intitulado The High Mountains of Portugal (As Altas Montanhas de Portugal), o romance surpreende por ter o nome do nosso país na capa, mas decerto deixará o leitor mais estarrecido quando chegar à página 204 (da edição inglesa) e ler uma esotérica descrição de uma idosa a despir-se sobre a mesa de autópsias, numa das muitas alegorias que o escritor coloca neste novo e muito esperado romance. Mas mais do que o striptease da mulher do patologista, é a narrativa desta sobre o que liga Agatha Christie ao significado dos Evangelhos, que torna o romance delirante nesta segunda parte do livro.

O novo trabalho de Martel divide-se em três partes: Sem casa, Para casa e Casa. Que reúne um trio de histórias que se colam umas às outras devido à localização nacional, mas sempre com personagens e histórias diferentes a não ser na existência de um chimpanzé que atravessa todo o romance. 'Sem casa' (130 páginas) relata a viagem do principal protagonista Tomás (Tomàs às vezes), um curador do Museu Nacional de Arte Antiga, entre o bairro de Alfama até à localidade de Tuizelo, que é um prato forte de reminiscências etnográficas do nosso país. 'Para casa' (82 páginas) é uma parte tão divertida como a primeira, que decorre na região de Bragança e é dominada pelas questões da religião e do humor, onde a idosa do striptease questiona esses temas, tal como a particularidade de Jesus utilizar abundantemente as parábolas, numa comparação aos métodos de investigação de Hercule Poirot. 'Casa' (114 páginas) é a parte menos humorística e trata da questão da dor que resulta da perda de uma pessoa de quem se gosta, sendo a reconstituição do exílio de um político canadiano na região norte de Portugal na década de 30.

A Vida depois de Pi

Yann Martel é famoso desde que A Vida de Pi se tornou um sucesso literário a nível mundial, tendo regressado à pátria canadiana e decidido viver com a família na região de Saskatchewan. Uma parte daquele país que se parece com o cenário de Trás-os-Montes devido ao frio, neve e solidão. Mas isso não impede que a mente fervilhante de Martel viaje para lugares como o norte de Portugal, que o atraíram como paisagem para esta ficção. The High Mountains of Portugal não será A Vida de Pi, que vendeu mais de sete milhões de exemplares e tornou-se o único best-seller entre os vencedores do Man Booker Prize, mas tem tudo para se tornar um grande êxito devido à sua temática alegórica e uma narração bruxuleante. Claro que para um leitor português há situações que podem parecer fora de foco mas, como o personagem Eusebio diz "Cada cadáver é um livro com uma história para contar, cada órgão um capítulo, e os capítulos interligados por uma narrativa comum."

Há ainda outro ponto comum às três histórias: um diário. Este escrito do Padre Ulisses serve como espoleta para a demanda de Tomás até Tuizelo, onde se liga às duas outras partes, e que traz à narrativa a questão do tráfico de escravos feito pelos portugueses no século XVII a partir de Angola. É dessa leitura do diário de Ulisses que surge a razão de ser do chimpanzé neste As Altas Montanhas de Portugal. O romance de Yann Martel será ser publicado pela Editorial Presença em maio, com uma tiragem inicial um pouco superior ao habitual, tanto devido ao título como ao sucesso do escritor junto dos leitores portugueses.

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