World Press Cartoon, o mundo em 270 desenhos

Depois de um ano de interregno, o World Press Cartoon está de volta e instala-se nas Caldas da Rainha. Os premiados são conhecidos esta noite. A exposição com uma seleção dos melhores desenhos de humor publicados em jornais e revistas de todo o mundo pode ser visitada até 10 de agosto.

Há um Donald Trump em forma de Pato Donald. Há muitos outros "Trumps" de outras formas. Também há terroristas, refugiados, vários políticos da União Europeia e caricaturas do futebolista Cristiano Ronaldo. Na exposição World Press Cartoon, que é inaugurada esta noite no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, está um pouco de tudo o que aconteceu no nosso mundo ao longo do último ano mas em forma de desenho. No total são quase 270 imagens, entre caricaturas, cartoons editoriais e desenhos de humor publicados na imprensa mundial e selecionados por um júri entre as cerca de 500 imagens que concorreram. Os premiados são anunciados esta noite.

Trata-se da 12.ª edição deste evento que chega às Caldas da Rainha depois de ter passado por Sintra e Cascais e de não se ter realizado no ano passado devido a dificuldades financeiras. "Um dos grandes caricaturistas portugueses está intimamente ligado às Caldas. Rafael Bordalo Pinheiro produziu aqui grande parte da sua obra. Por isso, achámos que fazia todo o sentido acolher este evento, sabendo que é um enorme desafio", diz a vereadora da Cultura, Maria da Conceição Pereira, sublinhando que o investimento financeiro da autarquia foi "elevado" mas que se trata de uma aposta a longo prazo. Essa é também a esperança do cartoonista António Antunes, diretor do salão: "Primeiro é preciso conquistar o público caldense para esta exposição e depois podemos pensar noutras coisas que podemos fazer à volta do salão", a propósito das caricaturas e do humor. "Temos de dar um passo de cada vez."

O primeiro passo será dado hoje, com a inauguração da exposição e a cerimónia de atribuição dos prémios, que contará com a participação da atriz portuguesa Maria Rueff e do humorista belga Elliot, assim como com a orquestra de jazz Begin Bing Band.

"Há muitos salões no mundo, o nosso é especializado em press cartoon, cartoon de imprensa", explica António. Isso significa que todos os trabalhos têm de ter sido publicados num jornal ou numa revista e, de acordo com o regulamento, os concorrentes têm de enviar a página da publicação. "A página mesmo, não a impressão da página, pois todos sabemos como hoje em dia se pode forjar uma página e inventar um jornal." O diretor admite que esta exigência, aliada ao facto de o salão ter tido um ano de interrupção, possa ter afastado alguns autores, uma vez que muitos já não guardam as páginas impressas. "Além disso, há outra coisa que mais tarde ou mais cedo vamos ter de ter em linha de conta, haver publicações que já não têm edição de papel. Temos de encontrar uma solução, aumentando o risco da prova, mas é um problema que não podemos ignorar por muito mais tempo."

A palavra cartoon é "um guarda-chuva que abrange coisas muito diferentes" mas o regulamento é muito claro na divisão em três categorias: a caricatura (retrato humorístico), o cartoon editorial (que aborda a atualidade e é, nas palavras de António, "a joia da coroa, pois é o cartoon que usa dois tipos de saber; o plástico, de desenho, e o saber jornalístico") e o gag cartoon ("que fala da vida, pode falar da pobreza, da riqueza, da poluição, do amor, mas sem se referir a um acontecimento específico"). "Com estas três categorias abarcamos de uma forma geral aquilo que acontece em termos de humor gráfico nos jornais", explica o diretor. O World Press Cartoon atribui três prémios em cada uma das categorias e ainda um Grande Prémio escolhido entre os três primeiros lugares.

Este ano, os vencedores são do Brasil, Equador, França, Grécia, Irão, Itália, Sérvia e Suíça. Não há premiados portugueses, o que pode ser visto como um reflexo da situação do cartoon na imprensa portuguesa. "A crise na imprensa em papel é generalizada" mas mais aguda nos países onde os jornais têm tiragens menores, como é o caso de Portugal. As dificuldades financeiras têm reflexos óbvios nas opções editoriais, admite António: "Os jornais acham que nós [os cartoonistas] somos dispensáveis. Na lógica economicista, da diminuição de custos, somos o parente pobre." As publicações em Portugal deixaram de ter cartoonistas residentes ou habituais e recorrem cada vez menos à ilustração.

E também por isso, diz, faz sentido que o World Press Cartoon resista: "O parente pobre tem direito a um dia vestir o fato e vir à rua. E isso não é nada de mais, é só mostrar estes desenhos como obras de arte que são, com dignidade, emoldurados, numa exposição montada com cuidado. Fazer um salão com a mesma dignidade de um bom festival de fotografia, de cinema ou de literatura."

Até 10 de agosto, a exposição terá uma seleção dos 267 melhores desenhos recebidos, publicados em 168 jornais e revistas de 51 países. O júri integrou, além do diretor António Antunes, Ross Thomson (Reino Unido), Hermenegildo Sábat (Uruguai), Angel Boligán (México) e Zoran Ptrovic (Alemanha).

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