Voltou a acontecer. O restauro desastroso de uma escultura do século XVI

A escultura em madeira de um São Jorge que era uma das atrações da igreja de Estella, perto de Navarra, está irreconhecível, com uma camada de pintura que é "um desastre"

E pronto, aconteceu outra vez. Seis anos depois de Cecilia Giménez, uma octogenária da cidade de Borja, perto de Saragoça, ter feito um restauro caricato de Ecce Homo, uma pintura do início do século XX, da igreja local, agora foi a vez de uma estátua de São Jorge do século XVI, que é um ex libris da igreja de São Miguel, de Estella, uma localidade de Navarra, ter sofrido igual destino: a estátua ficou desfigurada.

A denúncia foi feita na página no Facebook da Artus Restauracion, entidade que reúne especialistas na área, e as autoridades locais afirmam que estão a ponderar consequências legais.

À revelia das autoridades locais e autonómicas, a paróquia de Estella decidiu encomendar o restauro da escultura a um artesão local, sem conhecimento especializado na área, e a peça agora está irreconhecível.
A tinta original, com cerca de 500 anos, que se apresentava desbotada, está agora coberta por uma demão de tinta "inapropriada" para aquele trabalho, segundo a Artus Restauración, que transformou o santo num cavaleiro de face rosada e inexpressiva.

O arcebispo de Pamplona, veio, entretanto, explicar que o pároco da igreja de São Miguel de Estella, só queria "limpar um espaço que estava sujo", como escreve o El País, citando a autoridade eclesiástia. Mas o resultado final mostra que alguém se entusiasmou bastante para além de uma simples limpeza.

A associação de conservadores e restauradores de Espanha, a ACRE, também já se pronunciou contra o sucedido que, em seu entender "manifesta uma pavorosa ausência da formação prévia requerida para realizar este tipo de intervenções", como sublinha, citada no El País.

Lembrando que este tipo de ações estão regulamentadas por lei, obrigando a que sejam realizadas por técnicos especializados, a ACRE prepara-se, aliás, para fazer uma queixa judicial contra os responsáveis pela intervenção.
O alcaide (equivalente ao presidente da câmara) de Estella, Koldo Leoz, manifestou idêntica posição. Leoz critica o facto de o seu executivo não ter sido contactado, para que a intervenção pudesse ter sido feita em colaboração, ou pelo acompanhada pelos técnicos competentes da "alcalderia". Está por isso a ponderar, também ele, uma ação legal, segundo o próprio adiantou ao The Guardian.

Em 2012, o "restauro" de Ecce Homo por Cecilia Giménez, correu mundo. A pintura feita da octogenária foi desastrosa, mas teve um lado inesperado: desencadeou uma afluência de visitantes, que acorreram aos milhares a Borja para ver a "celebridade" - a pintura, mas também a espontânea pintora - num efeito colateral positivou que ajudou a encher os cofres da igreja e dos comerciantes da terra. Houve até um compositor que fez uma ópera a partir do episódio...

Agora, o caso de São Jorge de Estella também já está no Facebook, a ser partilhado, e é notícia na imprensa internacional. Desta vez, porém, os ânimos não parecem tão benevolentes.

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